Teatro como ofício
Uma cena na infância ficou na memória da carioca Fernanda Biancamano, de 36 anos. Ela tinha 8 anos e já era atriz. Ensaiava para a peça infantil Libel, a Sapateirinha. A diretora era Tina Ferreira, filha da lendária atriz, entre outras facetas, Bibi Ferreira (1922 - 2019), conforme conta o Canal Teatro MF. Para a menina, o nome Bibi remetia a uma imagem distante de uma lenda abstrata. Até ela en
Uma cena na infância ficou na memória da carioca Fernanda Biancamano, de 36 anos. Ela tinha 8 anos e já era atriz. Ensaiava para a peça infantil Libel, a Sapateirinha. A diretora era Tina Ferreira, filha da lendária atriz, entre outras facetas, Bibi Ferreira (1922 - 2019), conforme conta o Canal Teatro MF. Para a menina, o nome Bibi remetia a uma imagem distante de uma lenda abstrata. Até ela encontrá-la pessoalmente, e de surpresa, em um dos muitos ensaios realizados na casa de Tina - e de Bibi.
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A imagem que ficou marcada para Fernanda ocorreu em uma tarde despretensiosa. O momento em que Bibi, Abigail Izquierdo Ferreira, entrou na sala, saída do quarto, fugiu do que pode ser chamado de comum. A vestimenta não tirava dela o charme, pelo contrário, o mantinha. Por onde Bibi andava, transmitia a energia dos palcos, porque a arte se misturava à sua vida. Fernanda, ainda menina, viu de perto que a dona da casa e a dama do teatro eram a mesma pessoa.
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A sensibilidade de Bibi a acompanhava desde os primeiros raios da manhã. A intuição lhe sussurrou que Fernanda era um talento. Bibi respirava arte e era capaz de detectá-la a qualquer instante. Fez então, uma apresentação, para a menina e a equipe, como se estivesse no Carnegie Hall. Com a mesma inspiração e naturalidade, fez o que mais gostava: sentou-se ao piano, naquela casa no Flamengo.
Bibi fazia do teatro um exercício permanente de trabalho, disciplina e excelência. Tocou e cantou e Non, Je ne Regrette Rien, de Edith Piaf, uma das muitas celebridades que interpretou com maestria em seus quase 80 anos de carreira. Em seguida, dirigiu-se a Fernanda: “Minha filha, você tem talento e o que está fazendo aqui é um ofício, nunca se esqueça disto”.
Ela mesma, ainda jovem, despertou a admiração de um dos maiores dramaturgos brasileiros, Nelson Rodrigues. Em 1954, Nelson confiou a Bibi a direção de Senhora dos Afogados. Ele reconheceu a força visual da direção de Bibi, ao destacar a plasticidade que ela imprimira às cenas por meio das marcações dos atores.
O espetáculo sobre Bibi
Fernanda não se esqueceu mesmo da força daquele encontro entre ela, menina, e Bibi. Por uma destas coincidências da vida, ou melhor, do teatro, ela é uma das quatro personagens de Bibi no musical O Céu de Bibi Ferreira, que chegou ao Teatro do Sesi, na Avenida Paulista, em São Paulo, depois de temporadas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. O musical ficará em cartaz até 20 de setembro.
Com dramaturgia de Gabriel Chalita e direção musical de Carlos Bauzys, o espetáculo, dirigido por Gustavo Barchilon, expressa muito mais a alma do que a biografia concreta de Bibi.
Passagens da vida dela surgem como sonhos em meio às canções. Fica evidente a importância da mãe, Aída Izquierdo, e do pai dela, Procópio Ferreira, ambos ligados às artes. Aída Izquierdo, mãe de Bibi, era bailarina e cantora espanhola. Graças a ela Bibi conheceu o idioma e a cultura espanhóis, presentes em obras como O Homem de La Mancha.
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Também são interpretadas canções da fadista lisboeta Amália Rodrigues (1920-1999), inspiração do espetáculo Bibi Vive Amália, de 2001. Além das músicas de Piaf, cantadas de forma exuberante por Fernanda, a peça também passeia por composições da Broadway, com New York New York, pela submime Por Una Cabeza, de Carlos Gardel e pousa na simplicidade e ternura do Rio de Janeiro.
Cada uma das intérpretes se destaca com seu estilo próprio. Os quatro reunidos lembram a versatilidade de Bibi. Bárbara Sut, Carol Botelho, Giulia Nadruz completam o time, ao lado de Fernanda. Integram ainda o repertório musicais como My Fair Lady, músicas de Cole Porter e o impactante Monólogo das Mãos, de Giuseppe Ghiaroni.
A natureza do enredo é realçar a essência humana, representada pela intensidade com que Bibi Ferreira exaltou a dor e o amor. A linha melódica e poética, dos textos de das canções, revela essa essência.
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