Turquia reforça sua posição como potência regional no Oriente Médio
Na cúpula da Otan realizada em Ancara, no início de julho, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, presenteou líderes mundiais com um revólver turco Gümüşay .357 Magnum, acompanhado de munição real. A atitude foi interpretada como uma demonstração do objetivo da Turquia de ampliar sua influência na região.
O presente oferecido pelo presidente turco Recep Tayyip Erdoğan não chegou a surpreender os líderes mundiais que compareceram à última cúpula da Otan, em Ancara, no início de julho. Eles apenas deixaram o suntuoso Complexo Presidencial ainda mais convictos dos objetivos de Erdogan, depois que ele tomou a ousada iniciativa de lhes dar, de brinde, um revólver turco Gümüşay .357 Magnum, em pleno funcionamento. O nome de cada um estava gravado no coldre. O equipamento, acompanhado de seis munições reais, estava acondicionado em uma caixa de madeira. Eles também receberam um certificado do governo turco que autorizava a exportação da arma como presente oficial de Estado.
+ Leia mais notícias de Mundo em Oeste
O recado era mais do que direto. Depois de mais de 25 anos desenvolvendo um projeto de expansão militar, a Turquia finalmente se apresentava ao mundo como uma nação disposta a influenciar cada vez mais os destinos do Oriente Médio.
Ver essa foto no Instagram
"A Turquia combina recursos financeiros com um sistema político cada vez mais autoritário, que os governos ocidentais, apesar de sua disposição em condenar Israel, frequentemente tratam com uma indulgência surpreendente, e com aspirações de liderar o mundo muçulmano mais amplo", afirma a Oeste o professor Danny Orbach, especialista em Oriente Médio, da Universidade Hebraica de Jerusalém. "Historicamente, essas pretensões de liderança pan-islâmica quase sempre foram acompanhadas por uma postura fortemente anti-Israel."
Ele se refere ao período em que o Império Otomano, que deu origem à Turquia, no século 20, dominou territórios em três continentes, Europa, Ásia e África, entre 1299 e 1922, quando chegou a controlar cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados. Nas duas primeiras décadas do século passado, a região de Israel, antiga Palestina, estava sob domínio dos otomanos. O contexto atual, de certa maneira, se assemelha àquele período, sem que, no entanto, a Turquia busque um controle territorial tão amplo. Seu objetivo é aumentar cada vez mais a influência em regiões estratégicas.
A oposição árabe ao sionismo cresceu durante a década de 1920, no mesmo período em que Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da Turquia, aboliu o Califado Otomano, o que removeu uma instituição que anteriormente fornecia uma estrutura simbólica de unidade muçulmana. “Um século depois, a Turquia tenta — sem restaurar formalmente o Califado — recuperar parte desse papel mais amplo de liderança, com Jerusalém novamente servindo como um poderoso ponto de mobilização", diz Orbach.
A transformação atual começou pela economia. Depois da grave crise de 2001, a Turquia passou por uma série de reformas financeiras e institucionais que ajudaram a estabilizar as contas públicas, reduzir a inflação e atrair investimentos. O país, que no início dos anos 2000 era classificado como de renda média-baixa, chegou perto do grupo de alta renda em 2014.
Rússia em guerra
Erdogan esteve no centro desse processo. Foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 e, naquele período, comandava o governo dentro de um sistema parlamentar. Em 2014, tornou-se presidente. A mudança decisiva veio com o referendo constitucional de 2017. Depois de uma tentativa de golpe, este criou um sistema presidencialista, extinguiu o cargo de primeiro-ministro e ampliou os poderes da Presidência. O novo modelo entrou plenamente em vigor depois das eleições de 2018, quando Erdogan assumiu o controle sobre o Executivo, maior poder para nomear ministros e altos funcionários e mais influência sobre o Judiciário.
Com a expansão econômica, foram criadas condições para a transformação da indústria de defesa. Em 2002, a Turquia tinha apenas 62 projetos de defesa em andamento e suas exportações de produtos de defesa e aeroespaciais somavam US$ 248 milhões. Em 2025, eram mais de 1,4 mil projetos e US$ 10,054 bilhões em exportações, segundo a Presidência das Indústrias de Defesa turca. Pela primeira vez, cinco empresas do país entraram no ranking Defense News Top 100.
A Makine ve Kimya Endüstrisi (MKE) é uma delas. Empresa estatal de defesa, ela produz munições, armas e sistemas militares. Passou da 84ª para a 80ª posição no ranking mundial em 2025, com faturamento superior a US$ 1,2 bilhão. Em 2025, entregou mais de 95 milhões de munições para armas leves, 17 mil armas leves e mais de 450 armas pesadas e sistemas de armas, além de iniciar 25 novos projetos de pesquisa e desenvolvimento. Foi justamente a MKE que produziu o Gümüşay .357 Magnum, o antigo revólver entregue por Erdogan aos líderes da Otan na cúpula de Ancara.
O avanço da indústria bélica foi o passo decisivo que levou a Turquia a usar sua capacidade militar, econômica e diplomática para ampliar sua influência. O país destina mais de 2% do PIB à defesa e vem aumentando os investimentos em sua própria indústria militar. A Turquia stá presente nos Bálcãs, no Cáucaso, no Mediterrâneo Oriental e na África.
Na Líbia, apoia o governo de Trípoli e mantém interesses ligados à segurança e à energia. No Azerbaijão, consolidou uma parceria militar. E, na Somália, possui desde 2017 sua maior base militar no exterior, onde treina forças somalis. Em 2024, os dois países ampliaram a cooperação, que passou a ser combinada com incremento de infraestrutura.
A política na Síria também possibilitou o aumento da influência turca. A queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, alterou profundamente o equilíbrio de forças construído durante a guerra civil, iniciada em 2011. O Irã perdeu uma de suas principais rotas de influência local. O Hezbollah estava enfraquecido depois da guerra com Israel e a Rússia, envolvida na guerra da Ucrânia, já tinha menos condições de sustentar o mesmo nível de presença. A Turquia, que durante anos apoiou setores da oposição síria, tornou-se o principal ator externo com influência sobre a nova realidade de Damasco.
A Rússia ainda pretende preservar influência na região. Mas, com o enfraquecimento do eixo formado por Assad, Irã e Hezbollah, a Turquia ganhou margem para avançar justamente em uma área que considera vital para sua segurança: a fronteira de mais de 900 quilômetros com a Síria e a questão das forças curdas no norte do país.
Impasse para a Otan
É nesse ponto que a ascensão turca se torna particularmente relevante para a Otan. A Turquia faz parte da organização desde 1952. É uma ponte com o oriente, por controlar os estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo e abrigar o Comando Terrestre da aliança em Izmir. Tem ainda o segundo maior Exército do bloco, atrás apenas dos Estados Unidos.
Para a Otan, isso é ao mesmo tempo uma vantagem e uma fonte de preocupação. Uma Turquia militarmente mais forte significa um aliado com maior capacidade de defender o flanco sul da aliança, atuar no Mar Negro e produzir equipamentos que podem ser utilizados pelos próprios países membros.
Erdogan, porém, também conduz uma política externa mais autônoma, ao negociar com Rússia, países do Golfo, Ásia e África. Em alguns momentos, tal postura o coloca em choque com outros integrantes da Otan. O novo contexto gerou um impasse para a organização, que tenta agora se beneficiar da capacidade turca sem permitir que divergências entre Ancara e aliados da Otan comprometam sua coesão.
Para Israel, o cenário exige ainda mais atenção. A Turquia não é o Irã e não existe hoje uma guerra entre os dois países, mas a expansão da influência turca cria uma nova variável no Oriente Médio. A presença de Ancara na Síria é particularmente sensível porque Israel também considera a região essencial para sua segurança. Em 2025, Turquia e Israel chegaram a manter contatos técnicos para evitar incidentes entre suas forças na Síria, enquanto divergiam sobre o futuro do país e sobre a guerra em Gaza.
A movimentação da Turquia na Somália foi exatamente um dos motivos que levaram Israel a apoiar a Somalilândia. Israel tornou-se o primeiro Estado-membro da Organização das Nações Unidas a reconhecer formalmente, em dezembro de 2025, a Somalilândia como país independente e soberano. Os dois lados estabeleceram relações diplomáticas e anunciaram a intenção de ampliar a cooperação.
Leia também: "Terror à deriva", reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 307 da Revista Oeste
A região ganhou importância estratégica para Israel por causa da ameaça dos houthis e da instabilidade no Mar Vermelho. O olhar de Israel e da Turquia converge para o Chifre da África. A Somália é um parceiro importante de Ancara. Já Israel considera a Somalilândia um novo ponto de apoio diplomático e estratégico.
Isso não quer dizer que um confronto militar seja iminente. A estratégia de Israel é a de manter capacidade de dissuasão, inteligência e vigilância, além de canais para evitar choques. Mesmo como potência muçulmana, o fato de a Turquia ser também membro da Otan a faz ter interesses próprios que nem sempre coincidem com os de países árabes.
"A inteligência e o conhecimento regional terão papel especialmente importante para Israel”, acrescenta Orbach. Para ele, Israel deveria desenvolver um grupo robusto de diplomatas, agentes de inteligência, especialistas militares e acadêmicos que dominem o idioma turco e sejam capazes de acompanhar os debates internos da Turquia, sua cultura estratégica, seu desenvolvimento militar e suas redes de influência regional. ”Se a Turquia se tornar o principal rival regional de Israel, o país precisará compreendê-la com o mesmo grau de seriedade e profundidade dedicado historicamente a outros grandes adversários."
O post Turquia amplia o poder para se consolidar como potência no Oriente Médio apareceu primeiro em Revista Oeste.


