‘Vivandeiras alvoroçadas’: Baptista Júnior e a bajulação fardada ao luloalexandrismo
Neste sábado, 29 de agosto, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira, voltou a fazer o que tem feito com desenvoltura desde que decidiu narrar, em livro e em entrevistas, os bastidores da crise institucional de 2022: transformar toda crítica vinda da direita em pretexto para nova exibição de superioridade moral. Interpelado por Flávio Bols
Neste sábado, 29 de agosto, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira, voltou a fazer o que tem feito com desenvoltura desde que decidiu narrar, em livro e em entrevistas, os bastidores da crise institucional de 2022: transformar toda crítica vinda da direita em pretexto para nova exibição de superioridade moral.
Interpelado por Flávio Bolsonaro sobre seu suposto engajamento na campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu que chamar isso de campanha era “leviandade”, e ironizou que o senador não repetisse o espírito do técnico Zagallo – em uma alfinetada dirigida também a Rogério Marinho, coordenador da candidatura do PL, que pouco antes declarara, em tom combativo, que “a tal direita consentida vai ter que nos engolir”.
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Não foi a única frente aberta nesse mesmo dia: coube também ao deputado Marcel Van Hattem provar o tom professoral e desdenhoso do ex-comandante. Ao ser criticado pelo parlamentar, Baptista Júnior recorreu, para respondê-lo, a nada menos que Castello Branco, citando um trecho em que o marechal se referia aos “golpistas, militares e civis” que, segundo suas palavras, “desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar”.
A escolha do autor não poderia ser mais reveladora: ao equiparar um deputado da direita a uma “vivandeira” a importunar o quartel, Baptista Júnior repete, quase à letra, o gesto de desqualificação com que o comando das forças armadas sempre tratou os civis que ousaram cobrar-lhe fidelidade às suas obrigações institucionais, notadamente à “garantia dos poderes constitucionais”.
Não deveria surpreender. Há uma linhagem nítida entre o discurso de Baptista Júnior e o de outro oficial que também gostava de se apresentar como isento, técnico, acima da rusga político-ideológica: o próprio marechal Castello Branco. Em 15 de abril de 1964, ao tomar posse como presidente após a deposição de João Goulart, Castello Branco declarou ao Congresso que o remédio para os males da extrema-esquerda não seria “o nascimento de uma direita reacionária”, mas as reformas necessárias.
A frase, hoje pouco lembrada, e que recorria ao linguajar político das esquerdas nacionais, sintetiza a mentalidade positivista que sempre dominou a cúpula das Forças Armadas brasileiras: a crença tecnocrática de que a política – inclusive, ou talvez sobretudo, a de direita – é um resíduo irracional a ser superado pela administração científica das coisas (aquela mesma que, desde a publicação de Anti-Dühring, o marxismo também profetizara).
Foi em nome desse “remédio” da técnica contra a política que os generais de 1964 sufocaram justamente a direita civil que lhes servira de base social contra Goulart: perseguiram, cassaram e baniram da vida pública Carlos Lacerda, o político mais identificado com a mobilização que tornou possível a queda do presidente petebista.
Assim como hoje acontece, a direita real, de carne e osso, foi rotulada de “reacionária” e “extremista”, enquanto o marxismo cultural floresceu sob a proteção do mesmo regime. Não foi acidente: era o positivismo fardado cumprindo sua vocação histórica de trair os civis que lhe serviram de escada.
Compreende-se, portanto, que Baptista Júnior beba dessa fonte. Ele não inventou a fórmula – apenas a atualizou. Assim como Castello Branco evitou, a todo custo, o nascimento de uma direita “reacionária” que pudesse perturbar o status quo de sua época, o ex-comandante da FAB evita reconhecer que sua subserviência ao tirano Alexandre de Moraes e sua leitura complacente do lulopetismo cumprem função análoga: absolver as Forças Armadas de qualquer dívida com aquela parcela da população que sempre defendeu a honra da caserna contra décadas de propaganda antimilitar oriunda da esquerda, e que, em 2022, ocupou as ruas na esperança (ingênua, obviamente) de alguma reciprocidade institucional. Não houve reciprocidade então. Como não houve nos anos 1960.
A diferença é que, desta vez, não é preciso cassar ninguém. Basta o desdém, a resposta espirituosa no X, o convite a aguardar o lançamento do livro. A subserviência ao regime luloalexandrino se traveste de imparcialidade, tal como a traição ao movimento civil de 1964 um dia se travestiu de “revolução”.
Baptista Júnior não trai a direita por acidente: trai-a porque, como seus antecessores fardados, nunca a viu como aliada, mas como o mal maior – pior, no fundo, do que a própria esquerda revolucionária. Afinal, é com esta, e não com aquela, que a caserna positivista sempre partilhou a mesma crença historicista e elitista no poder: a de que a história caminha num só sentido, rumo a um estágio final administrado por quem já se julga esclarecido, e de que cabe a essa vanguarda – fardada ou não – decidir por todos os demais o que é ou não “extravagância” a ser tolerada.
“E assim Mário, forçado, em troca desse auxílio, a assistir calado enquanto Saturnino corria aos extremos da ousadia e do poder, provocou, sem o perceber, um mal que não teria mais cura, mas que abriria caminho, pelas armas e pela matança, diretamente para a tirania e a subversão do governo.” (Plutarco, Vidas Paralelas, “Vida de Caio Mário”)
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