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Zweig contra Hitler: a guerra de um escritor

Stefan Zweig foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores escritores que a modernidade produziu. Dono de uma escrita que se afundava nos vãos da psicologia de seus personagens, sem deixar à vista que estava fazendo isso, ele tinha um dom realmente raro na literatura: dizendo pouco, falava muito. Há quem discorde de mim, em especial o poeta incrivelmente chato Michael Hofmann, o qual, em uma das c

Stefan Zweig foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores escritores que a modernidade produziu. Dono de uma escrita que se afundava nos vãos da psicologia de seus personagens, sem deixar à vista que estava fazendo isso, ele tinha um dom realmente raro na literatura: dizendo pouco, falava muito.

Há quem discorde de mim, em especial o poeta incrivelmente chato Michael Hofmann, o qual, em uma das críticas mais cortantes já feitas a Zweig, acusou-o de ser um escritor sentimental e raso; Hannah Arendt, por sua vez, criticou no escritor o que chamou de “passividade ante o antissemitismo”. E ela tinha razões sinceras para isso, se olharmos para o Zweig conscientemente indisposto para os debates políticos de seu tempo.

Na verdade, o austríaco sofria de um idealismo que até mesmo eu, confesso, odeio. Ele era um cosmopolita incurável, um pacifista em delírio. Stefan chegou, não poucas vezes, parecer abdicar de sua herança judaica a fim de abraçar a identidade europeia, como se fosse somente essa última a genealogia que lhe interessava ostentar. Além disso, recusou-se inúmeras vezes a assinar declarações públicas contra o nacionalismo alemão e contra a perseguição aos judeus na Alemanha e na Áustria.

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Mas esse é apenas um pedaço da história, pois o que isso de fato revela é que o escritor não via na política partidária, ou sequer na política mesma, a saída para uma mudança interior completa e eficaz. Não era neutro e muito menos covarde, era apenas indiferente aos métodos políticos e bélicos. Seja como escritor, libretista, ensaísta, historiador e jornalista — todos esses títulos que de fato ele honrou em um ou mais escritos —, o austríaco trabalhou a máxima de que somente a literatura pode converter e ajustar a alma humana.

Ele atacou o totalitarismo e o fanatismo repetidamente, só que por meio do registro literário e histórico, não por panfletos políticos. Já na 1ª Guerra, ele escreveu Jeremias (1917), peça abertamente pacifista e antinacionalista, produzida em plena correspondência com Romain Rolland, com quem compartilhava um projeto explícito de resistência intelectual ao militarismo europeu. E, em 1929, Mendel, o livreiro, uma novela curtíssima que, se quisermos ver para além da história contada, notaremos nela uma declaração de resistência literária e intelectual contra a insanidade da guerra.

Outras obras de Zweig

Em 1934, publicou sua biografia de Erasmo de Roterdã — denominada Triunfo e Tragédia de Erasmo de Roterdã —, lida por praticamente toda a crítica posterior como uma alegoria direta do humanista isolado e impotente diante do fanatismo em ascensão —, na qual Erasmo contra Lutero funcionando como espelho de Zweig contra Hitler.

Em 1936, ele foi ainda mais explícito em Castélio contra Calvino, em que retrata a perseguição movida por Calvino contra Sebastião Castélio em Genebra: o próprio Zweig reconheceu, em cartas da época, que estava escrevendo sobre a tirania teocrática de seu tempo usando o século 16 como disfarce histórico. É provavelmente o texto mais contundente que ele produziu contra o totalitarismo enquanto estrutura de poder, não apenas contra o nazismo especificamente.

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Enquanto seus pares de escrita trocaram as penas pelas baionetas, ou batalhavam simultaneamente munidos de panfletos e fuzis, o austríaco, por sua vez, escolheu a via cultural do chamado à consciência: transformar a defesa da liberdade do homem em adubo literário. Zweig não via, nem na oposição puramente política, nem no sacrifício bélico de almas, um heroísmo maior do que o ato de gestar um ensaio bem-escrito ou uma novela bem-construída contra a ideia totalitária. No longo prazo, parecia crer que, se não houver alimentos nutritivos para afastar da mente humana a doença do genocídio e a tentação do totalitarismo, nem todos os tanques e soldados do mundo eliminariam a causa da infecção ideológica — ou possessão, como preferirem.

Stefan reúne tudo que amo e odeio num homem, e por isso me sinto cada vez mais fascinado por ele. Ele é um escritor profundo e corajoso que, por meio de biografias, ensaios e romances atingiu o núcleo de toda barbárie de seu tempo com uma elegância que poderia fazer Stálin aplaudi-lo e Hitler elogiá-lo sem perceberem ao certo que eles eram o centro de todo bombardeio literário daquele gênio. É preciso muita inteligência para fazer isso, para conseguir penetrar no imaginário do homem e fazê-lo rechaçar na larva não somente o antissemitismo em si, mas todo e qualquer atentado contra a liberdade humana, seja essa liberdade a dos judeus, dos negros ou de quaisquer outras agremiações.

Pacifismo como escudo

Ao mesmo tempo, Zweig escudava um pacifismo completamente idealista e um cosmopolitismo de utopia barata, acreditava numa espécie de irmandade infantil entre os homens que geraria, após um trabalho árduo, o depósito das armas e das babaquices humanas. Seu otimismo no homem foi sua maior beleza e, também, sua maior ruína. Foi na base desse otimismo, aliás, que ele criou o bordão mais esperançoso e mais ingênuo sobre este país: “Brasil, o país do futuro”. Se ele fosse um pouco menos radical em sua fofura idílica, poderia ter visto que ditadores não recuam por epifania, nem nunca usaram uma frase de Shakespeare para corrigirem seus delírios de poder ou de Rousseau para desmancharem sequer um barracão em Auschwitz. Força bruta nunca foi bonita, mas, quando falamos de ditadores e de genocidas, quase sempre ela foi necessária para pará-los.

Stefan e sua segunda mulher, conhecida como “Lotte”, depois de fugirem do nazismo em 1933, refugiaram-se em Londres, depois, em 1940, nos Estados Unidos e, por fim, em 1941, no Brasil. Instalaram-se em definitivo em Petrópolis, na Serra Fluminense. Os biógrafos do escritor sempre notaram que seu amor pelo Brasil era genuíno, o povo o cativava e a simplicidade de tudo que o rodeava era uma espécie de vitamina para suas ideias e filosofias. Mas engana-se quem pensa que ideias ingênuas significam que seus portadores também o são, pois otimistas não raro são depressivos, e sorrisos em bocas não são garantias de felicidades no coração. Tal paradoxo ainda é pouco explorado na vida de Zweig, e passarei a vez de tentar fazê-lo aqui. O fato é que, em 22 de fevereiro de 1942, Zweig e Lotte ingeriram uma dose fatal de barbitúricos; ambos foram enterrados no cemitério municipal da cidade de Petrópolis. 

Em sua carta de suicídio ele disse:

Cada dia eu aprendi a amar mais este país e não gostaria de ter que reconstruir minha vida em outro lugar depois que o mundo da minha própria língua se afundou e se perdeu para mim, e minha pátria espiritual, a Europa, destruiu a si própria. 

[...]

Deixo saudações a todos os meus amigos: talvez vivam para ver o nascer do sol depois desta longa noite. Eu, mais impaciente, vou embora antes deles.

- Stefan Zweig, 1942.

E assim morreu um dos literatos mais profundos que li em minha vida, dono de um texto sedutor mesmo em assuntos teoricamente chatos. Suas biografias se envergavam em contornos de romance, sua escrita ensinou gerações de historiadores a largarem as notas de rodapé de dois metros e a linguagem academicista babada, feita para dormir. Um homem que, para bem ou para o mal, foi coerente até o fim. Matou-se acreditando que, até mesmo nesse ato extremo, se escondia uma dignidade poética de um pacifista, era a única violência que ele podia conceber, a única radicalidade que ele suportava, isto é, a intransigência de negar-se a viver na desesperança ou de morrer pelas mãos de ditadores.

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