O tempo e o poder: O que Iris Rezende Machado e Franklin Delano Roosevelt ainda têm a ensinar
Por Álen Rodrigues de Oliveira – Economista e Auditor de Finanças e Controle
Em política, há líderes que passam pelo poder e há líderes pelos quais o poder passa, deixando marcas profundas, estruturais e humanas. Entre esses nomes raros, dois me chamam a atenção pela impressionante convergência de trajetórias, apesar de viverem em países, culturas e escalas completamente distintas: Iris Rezende Machado, em Goiânia, e Franklin Delano Roosevelt, nos Estados Unidos.
Não se trata apenas de comparar dois longos mandatos ou dois administradores eficientes. Trata-se de compreender um tipo de liderança que não se sustenta em slogans, mas em resultados. Um tipo de gestor que compreende que permanecer no poder só faz sentido quando isso significa entregar mais, ouvir mais e transformar mais.
Roosevelt governou por quatro mandatos consecutivos, algo tão singular que o país se viu obrigado a estabelecer limites constitucionais depois de sua morte. Ele foi, literalmente, o presidente que os americanos chamaram para conduzi-los nos momentos mais amargos da sua história.
Iris Rezende, em sua realidade, viveu fenômeno semelhante. Eleito e reeleito sucessivas vezes, voltou ao Paço Municipal quando já poderia ter encerrado sua carreira, mas foi novamente escolhido pela população. Ninguém retorna tantas vezes ao comando de uma cidade sem algo muito simples: confiança popular. Iris foi vereador, deputado estadual em Goiás, prefeito de Goiânia por quatro mandatos, governador de Goiás, senador da república e ministro da agricultura e justiça.
E confiança não é conquistada apenas com carisma, nasce da entrega constante.
Ambos eram advogados e isso não é detalhe.
Tal formação forjou líderes que enxergavam o Estado não como palco de protagonismo pessoal, mas como espaço de responsabilidade social; homens acostumados ao debate, ao equilíbrio, à análise das consequências e à mediação entre interesses.
Talvez por isso tenham sido líderes tão duradouros: governavam com método, não com improviso; com diálogo, não com ruptura.
No hemisfério norte, Roosevelt criou o New Deal, programa que até hoje molda a economia e o bem-estar social dos Estados Unidos. Infraestrutura, empregos, direitos, segurança, tudo isso ganhou novo sentido a partir de sua visão de governo.
No hemisfério sul, Iris Rezende criava algo que, em sua essência, traduzia o mesmo propósito: os mutirões.
Aqui não havia apenas casas sendo levantadas; havia dignidade sendo devolvida, comunidade sendo fortalecida e esperança sendo construída com as próprias mãos.
É fascinante perceber que, mesmo em épocas diferentes, esses dois líderes compartilhavam uma ideia simples: políticas públicas devem alcançar pessoas reais, não estatísticas.
No fim das contas, o que conecta Iris e Roosevelt é a ideia de que permanecer muito tempo no poder só vale à pena quando isso se traduz em legado, não em continuidade pelo simples fato de permanecer.
Roosevelt mudou para sempre a relação entre o Estado e a sociedade americana.
Iris mudou para sempre a relação entre o poder público e a população goianiense.
Ambos nos ensinaram que o tempo, na política, é um recurso precioso e que sua verdadeira utilidade depende de como ele é usado.
Vivemos uma era de desconfiança na política. Escândalos, polarização, promessas vazias e lideranças frágeis criaram um ambiente em que quase ninguém acredita mais que a política seja capaz de produzir algo grandioso.
Mas quando revisitamos histórias como as de Iris Rezende e Franklin Roosevelt, somos lembrados de que ainda existem modelos possíveis de líderes que governam com propósito, que mobilizam pessoas, que deixam obras e memórias, não apenas discursos.
O tempo deles passou, mas as lições que deixaram permanecem e, diante do mundo que construímos, talvez nunca tenham sido tão urgentes.