Com a devida vênia, Moraes, prefiro acreditar em meus olhos
Tenho a profunda convicção de que o homem comum possui uma qualidade que a academia e a mídia têm se esforçado para invalidar: a percepção sã e inata da verdade. Converse com o seu João do bar do Dito, a Creuza, costureira de Osasco, ou a dona Sônia, cuidadora de idosos em Santana de Parnaíba, e todos eles vão ser crus, diretos e essencialmente corretos sobre temas complexos como o aborto, a t
Tenho a profunda convicção de que o homem comum possui uma qualidade que a academia e a mídia têm se esforçado para invalidar: a percepção sã e inata da verdade.
Converse com o seu João do bar do Dito, a Creuza, costureira de Osasco, ou a dona Sônia, cuidadora de idosos em Santana de Parnaíba, e todos eles vão ser crus, diretos e essencialmente corretos sobre temas complexos como o aborto, a teoria de gênero, a maioridade penal ou o foro privilegiado. Não que a realidade seja simplória e fácil, que tudo se explique por uma observação de senso comum e sem aprofundamento. Eu sei que, muito possivelmente, o seu Geraldo, marceneiro, não conseguiria explicar como se deu a construção química e física de um carvalho-alvarinho, nem como se dá o ciclo das gimnospermas; porém, é certo que ele saberá construir uma cadeira de eucalipto ou uma cômoda de tauari, e um móvel também é um fato. Da mesma maneira, uma parteira anciã do Cariri não sabe o que é formação do blastocisto ou etapa da organogênese, porém sabe que, inevitavelmente, se nasce homem ou mulher ‒ ainda que intelectuais do porte de Judith Butler e Simone de Beauvoir não concordem.
O que eu quero dizer é que, na modernidade, tornou-se comum utilizar-se de muita informação, emplastros intelectualoides, microscópios ideológicos e verborragias retóricas para transformar fatos em mentiras; e mentiras, em fatos. Fico imaginando, por exemplo, quanta retórica, quantas estatísticas e quanto financiamento da Fundação Ford foram necessários para que mulheres julgassem que seus úteros e suas casas eram prisões e que cargos altos e ansiolíticos caros eram sinônimos de liberdade. Enfim, deixe-me chegar ao meu ponto.
Durante os últimos meses, em especial nas últimas duas semanas, estamos assistindo à orgia corrupta em nosso Judiciário. As mensagens reveladas pelo ministro André Mendonça, principalmente concernentes ao ministro Alexandre de Moraes e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, não mostram outra coisa senão favorecimento ilícito e advocacia paralela em prol de um banqueiro. Pelo menos um ministro do Supremo Tribunal brasileiro e o diretor-geral da principal polícia do Estado parecem ter sido literalmente comprados para exercer influência e servir de escudo a um mafioso. Conquanto não surjam evidências absurdamente esclarecedoras de Moraes e Andrei que expliquem ou desmintam os próprios técnicos da Polícia Federal, conclui-se que ‒ assim como disse o ministro Fux ‒ o Brasil tem hoje uma PF paralela a serviço de um ministro possivelmente corrupto, o que, a reboque, leva-nos a concluir que também tínhamos um STF paralelo.
Partindo do pressuposto — mais do que provado — de que as mensagens apresentadas por André Mendonça são verdades periciáveis e duras o suficiente, os fatos não precisam de mais lupas, teses e descortinamentos além dos que já existem para se chegar a uma conclusão. O povo não conhece o Regimento Interno do STF, mas sabe quanto mede um safado e qual é o cheiro moral de um corrupto. O brasileiro comum entendeu plenamente que Moraes servia a interesses paralelos, seja no Inquérito das Fake News, seja em outros. Que, junto à sua esposa, exercia advocacia para um banqueiro que mantinha contratos milionários injustificáveis. Parece mais do que claro, basta ver, que Moraes era o consultor de luxo de Vorcaro, a quem, em suas próprias palavras, ele “devia a sua vida”.
O que vimos na última terça-feira ‒ isto é, eu, você, dona Neide e seu Bastião ‒, o julgamento-picadeiro, foi mais uma tentativa dessa ala apodrecida do Estado brasileiro de defender o indefensável, de purpurinar o cocô, de esconder, sob camadas grossas de retórica, juridiquês e até mesmo de um clamor por uma ética mais mafiosa, as vergonhas morais e as verdades fedorentas da Corte máxima deste país. Gilmar Mendes, Zanin e Moraes atualizam aquilo que deveria ser apenas uma linha da comédia de Chico Marx, o comediante norte-americano que, em 1933, no filme O Diabo a Quatro, eternizou a frase: Who are you going to believe, me or your own eyes?. “Em quem você vai acreditar, em mim ou nos seus próprios olhos?”
Homens e mulheres comuns, vocês não são loucos, burros ou alienados. Como dizia Sebastião Freitas a Simão Bacamarte em O Alienista: “Quem nos afirma que o alienista não é o alienado?”. Quem nos assegura hoje que os verdadeiros golpistas não são os que deveriam ser os guardiões da Constituição?
Enfim... Confie em seus olhos.
Leia também: "Chicaneiros de toga", reportagem publicada na Edição 340 da Revista Oeste
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