Desastre no Nepal destaca riscos do aquecimento global para comunidades montanhosas
A crise climática pode desestabilizar o solo em áreas montanhosas como o Nepal, e especialistas apontam a necessidade de adaptação para prevenção.
A devastação causada pelas fortes enxurradas que atingiram a fronteira entre o Nepal e a China na semana passada pode se tornar recorrente em áreas montanhosas, especialmente no Himalaia, em decorrência das mudanças climáticas. A região é uma das que mais aquecem em todo o mundo, com impacto direto sobre as geleiras que cobrem as montanhas, causando instabilidade geológica e facilitando a ocorrência de colapsos glaciais e deslizamentos de terra de grande proporção.
Até a tarde de ontem (31/8), foram confirmadas 919 mortes, com cerca de 4,8 mil pessoas ainda desaparecidas no Nepal e na China. Mais de 10 mil pessoas foram resgatadas, e quase 20 mil agentes de segurança foram mobilizados para as operações de resgate e salvamento, segundo o governo nepalês.
A hipótese mais forte para a causa do desastre é que as enxurradas tenham sido provocadas pelo colapso de uma grande geleira na encosta norte de Langtang Lirung, cujos detritos caíram sobre o rio Lhende Khola, no lado chinês da fronteira. Os níveis de água dos rios a jusante subiram entre 7 e 9 metros em meia hora, segundo dados do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas.
Como o Guardian assinala, o colapso ocorreu em meio a um calor incomum, que provavelmente derreteu o gelo que mantinha unida a rocha fragmentada. Dois dias antes do desastre, a temperatura do solo atingiu seu ponto mais alto dos últimos dois anos em sensores localizados a 10 km do local.
“Essas altas temperaturas teriam enfraquecido a camada de neve, enchido as fendas com água e derretido as ligações entre o gelo e a rocha que mantêm essas geleiras no lugar”, explicou Hamish Pritchard, glaciologista do British Antarctic Survey.
Ziha Yitie, guia turístico ouvido pelo New York Times, corrobora essa hipótese. Ele levou um grupo de excursionistas a um mirante no Tibete na manhã de 4ª feira (26/8), pouco antes do desastre, onde ouviram uma série de “estrondos profundos”, que pareciam detonações de explosivos nas montanhas, seguida de uma onda de ruído e, depois, de uma nuvem de poeira. Embora não soubessem, eles testemunharam o início do colapso.
Mesmo a população do Nepal, acostumada a desastres como terremotos e avalanches, ficou em choque com a violência da enxurrada. “Nunca tínhamos visto nada parecido. Nem mesmo nossos ancestrais se lembram de uma enchente dessa magnitude”, contou Bhagawati Khatiwada, moradora da vila de Devighat, no distrito de Nuwakot, ao Le Monde. A região foi completamente devastada pelas correntes de água, lama e pedras. Não sobrou uma casa em pé.
Muitas das pessoas que moram nesses vilarejos nas montanhas trabalham nas várias usinas hidrelétricas construídas nos últimos anos no Himalaia para aproveitar o potencial hídrico da região. Centenas delas seguiam presas em túneis ontem, com equipes correndo contra o tempo para chegar a elas. Cerca de 500 trabalhadores estariam presos e ainda poderiam estar vivos, a depender da disponibilidade de oxigênio e água, informam AP, Guardian e Reuters.
Devido ao desastre, cerca de 10% da capacidade de geração elétrica do Nepal está interrompida. A AP ressalta que esse será um dos pontos mais delicados do processo de reconstrução das áreas afetadas pelas inundações: como aproveitar esse potencial hidrelétrico de forma resiliente a eventuais novos desastres no futuro.
“As autoridades precisam fazer agora uma profunda reflexão e questionar como irão reconstruir essas áreas. Também precisarão analisar atentamente outros projetos no Nepal que ainda não foram construídos e verificar se serão aprovados após este evento”, afirmou Jakob Steiner, geocientista da Universidade de Graz, na Áustria.
Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/08/31/himalaia-mais-quente-desastre-no-nepal-reforca-ameacas-a-comunidades-em-regioes-montanhosas/
Fonte: climainfo.org · Por Ian Mello
