Especulações sobre petróleo na Foz do Amazonas alteram cenário em Oiapoque
O entorno do aeródromo da cidade passou por mudanças significativas, incluindo desmatamento e construção de centenas de casas em ocupações sem infraestrutura básica.
Oiapoque é a cidade mais próxima do bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas, onde a Petrobras busca petróleo e gás fóssil. Desde que, há mais de três anos, a petrolífera deu entrada no processo de licenciamento do poço Morpho, que está sendo perfurado agora na área, a possibilidade da estatal encontrar combustíveis fósseis no bloco promoveu um afluxo rumo ao município amapaense. Gente que foi atrás da riqueza e do desenvolvimento prometidos pela indústria de óleo e gás. Mas que, historicamente, chegam a poucos. Não faltam exemplos disso, tanto no Brasil – como Coari, no Amazonas – quanto na vizinha Guiana, que sofre com a “maldição do petróleo”.
Com o anúncio recente da Petrobras de que encontrou indícios de petróleo no poço Morpho, a população de Oiapoque ficou em polvorosa. A confirmação da presença do combustível fóssil no Bloco 59 – ainda que a empresa tenha feito a ressalva de que não pode dizer que a descoberta tem viabilidade comercial – dividiu as opiniões de quem vive no município, destacam Jornal do Amapá 2 e g1. Entre a promessa de novos empregos e o receio de impactos ambientais na costa, os moradores sentem, na rotina, os primeiros reflexos da atividade petrolífera.
Há uma grande expectativa em relação aos royalties, compensação financeira paga às cidades que abrigam ou estão próximas a instalações petrolíferas, cujo valor varia de acordo com o volume de combustíveis fósseis produzido e seu valor de mercado. Apesar de nada estar confirmado, em Oiapoque pouco se cogita a possibilidade desses royalties não se concretizarem. E só a especulação já tem mudado a dinâmica da cidade e trazido migrantes de outros municípios, de outros estados e até de outros países, destaca a BBC Brasil.
“Eu vim também pela melhoria que eu tenho certeza de que o petróleo vai trazer para o município. É a expectativa de todos os moradores”, diz a paraense Sheila Cals, costureira de 69 anos que há 35 anos rumou para a Guiana Francesa em busca de melhores oportunidades de vida, mas que há dois anos ouviu de amigos que era hora de voltar, e para Oiapoque, por causa da exploração de petróleo no Bloco 59.
Sheila mora no Belo Monte, bairro na zona de expansão da cidade, impulsionada pelos migrantes. Essa região, nos arredores do aeródromo de Oiapoque, sofreu uma transformação drástica nos últimos anos, com desmatamento e a construção de centenas de casas em ocupações sem qualquer infraestrutura. Nas contas de Zione de Paiva, conhecida como a Loira do Belo Monte e presidente da associação do bairro, mais de cem casas foram construídas só no último ano, totalizando 450.
Além do Belo Monte, ocupações ainda mais recentes, como Areia Branca, Nova Conquista e Independência, têm visto, dia após dia, novas construções e novos moradores chegando. Somente em 2025, foram emitidos cerca de 800 alvarás de construção e de transferência, “reflexo direto do investimento em obras comerciais e residenciais” nos últimos anos, segundo a prefeitura da cidade.
Com a chegada de funcionários da Petrobras e de migrantes, os aluguéis também aumentam. Uma moradora relatou que o valor pago subiu de R$ 1,2 mil para R$ 1,9 mil de um mês para o outro. Uma empresária que aluga um estacionamento diz que o valor cobrado dobrou no último ano. Além do aumento da demanda, a cidade tem vivido um cenário de especulação, avalia a corretora de imóveis Ivete Sarmento.
Os bairros mais novos, em geral, estão sendo ocupados por casas muito simples, de madeira, em ruas de terra e até sem acesso à água. Segundo relatos, além dos que chegaram por necessidade de moradia, outro grupo ocupou vários lotes na expectativa de revender mais à frente, se a fartura do petróleo chegar.
Enquanto as promessas de regularização e urbanização não se concretizam e os royalties ainda não chegam, presidentes das associações de moradores dizem que já não há mais espaço para novos residentes, pois todos os terrenos, mesmo sem casas, já foram ocupados. Esperam agora que a região entre em uma nova etapa, com mais organização e infraestrutura, diante dos recursos prometidos que chegarão ao município. “Mas olha, vou te dizer, Oiapoque está crescendo em população, mas não em desenvolvimento”, definiu Sheila Cals.
Os moradores, novos e antigos, acompanham atentos o que está acontecendo em alto-mar, no poço da Petrobras. Será que vai haver petróleo viável para ser explorado ali? Quando esses recursos chegarão? E o que acontece se o petróleo vazar, motivo de preocupação entre os ambientalistas críticos ao projeto?
Para Loira, presidente da associação de moradores do Belo Monte, há uma preocupação generalizada, mesmo entre os que torcem pelo projeto. “A gente tem receio, sim, porque, se houver vazamento de petróleo, isso vai afetar muitas famílias que vivem da pesca e dependem desse rio”, afirmou.
Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/08/20/especulacoes-sobre-petroleo-da-foz-do-amazonas-mudam-dinamica-de-oiapoque/
Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello
