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IA não tem caganeira, e por isso não faz literatura

Semana passada, afirmei que a inteligência artificial jamais conseguirá produzir literatura. Desde então, tenho sido abordado por alguns colegas e estranhos, enamorados dos prompts e mecanismos dessa nova revolução, dizendo que tal sentença minha era um tanto quanto leviana, uma espécie de futurismo que tende — tal como outras profissões e capacidades humanas — a se mostrar repetível pelas máqui

Semana passada, afirmei que a inteligência artificial jamais conseguirá produzir literatura. Desde então, tenho sido abordado por alguns colegas e estranhos, enamorados dos prompts e mecanismos dessa nova revolução, dizendo que tal sentença minha era um tanto quanto leviana, uma espécie de futurismo que tende — tal como outras profissões e capacidades humanas — a se mostrar repetível pelas máquinas.

Eles me entenderam mal, primeiro porque não sou um ludista do século 21, nem acho que a IA deixará de trazer avanços e benefícios. A única coisa que afirmo é que, quando falamos de literatura, é impossível separar o homem e sua humanidade do texto produzido por ele. Aliás, numa análise mais crua, poucas notícias são tão boas para escritores profissionais quanto o advento dos livros escritos por IA.

“Mas, Pedro...”, calma, meu bem.

Sempre houve no mundo literário boas e más literaturas, assim como bons e maus leitores, é óbvio. O mercado editorial, nesse quesito, é o mais democrático da Terra; pois, seja para chatos exigentes ou para medíocres superficiais, quase sempre existiram boas opções de textos. Os livros de IA apenas vêm compor o rol dos pouco exigentes, dos tarados por distrações fáceis, sem exigências para além da capacidade mínima de leitura — às vezes, nem isso. No entanto, a boa literatura continuará sempre sendo a arte dos homens, simplesmente porque não pode existir literatura sem humanidade.

Uma das características singulares da nossa espécie é a sua inconstância, sua incoerência. Somos seres sujeitos a erros em todos os níveis, abstrato ou material, genético ou religioso; tais incoerências são mais do que meros desajustes, são o núcleo do que nos caracteriza. Somos seres falhos. E, dentre todos os problemas que tais falhas sempre nos trouxeram — desde Adão —, a literatura é uma das poucas artes que as dignificou e as tornou respeitáveis. Somente na literatura conseguimos unir a genialidade artística, técnica e psicológica de um escritor às formas, por vezes, tortas, imorais ou até abjetas que ele sustenta. E é justamente nesse desajuste, atravessado pela genialidade do homem, que a literatura brota. A obra O Alienista, de Machado de Assis, tal como ela é, só existe por meio dos defeitos únicos, experiências únicas, convicções únicas e ideias únicas que, configuradas por meio das vivências e traumas igualmente únicos de Assis, a criaram.

Tais ajustes e composições são simplesmente irrepetíveis. O Alienista só poderia ter sido escrito por Machado, nunca ninguém conseguiria fazer aquilo, não igual ao texto que hoje temos. Agora estenda isso a todas as outras obras, maiores ou menores em genialidade: A Educação Sentimental, de Gustave Flaubert; A Leste do Éden, de John Steinbeck; A Divina Comédia, de Dante; Jogos Vorazes, de Suzanne Collins; Misery, de Stephen King; ou A Ilha, de Adrian McKinty. Nenhuma dessas obras poderia ter sido escrita, da forma que foi escrita, a não ser por meio das configurações bambas e engenhosidades singulares de seus autores.

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Por que a IA jamais alcançará a complexidade humana

A IA pode conseguir criar histórias com técnicas impecáveis e pegar, em sua base de dados, insumos para criar sentimentos e percepções tipicamente humanas, mas não consegue ser originalmente humana, isto é, agir na aleatoriedade de uma mente ambígua. E, ainda que, por meio de prompts muito bem-trabalhados, ela passe a emular os defeitos e virtudes humanas, ainda seria tão somente uma emulação. Jamais iremos ver num romance do Claude a genialidade do texto atravessada pela ambivalência humana, pois seu autor não é reconhecível, não pode ser questionado, amado ou odiado, a não ser do mesmo modo que amamos ou odiamos um penico ou um ralador. Seria particularmente interessante ver um crítico literário se perguntando o que o DeepSeek quis dizer com “hemorroida mental”, ou se debatendo na aporia sobre qual é a crítica social do Grok quando ele criou uma personagem com dois pênis.

Somente uma biografia real por trás de um texto possibilita um descortino verdadeiro e faz emergir dele conflitos morais humanos que nos ligam à história; algoritmos não tropeçam na calçada e amaldiçoam o mundo, não sentem amor por um filho, não pegam a esposa com o vizinho na cama, não se emocionam com o pôr do sol, nem têm caganeiras dentro do busão. Algoritmos não têm traumas nem amores, apenas emulações, e sem tais vulnerabilidades não há literatura. Assim, reafirmo: só o homem consegue produzir literatura, pois literatura, sem a complexidade singular de cada homem, é mera junção de palavras sem alma.

Por fim, admito que devam existir histórias interessantes criadas por inteligência artificial, mas temo que nenhuma delas tenha saído de um olhar real, de um insight verdadeiro, de um sonho, como no caso de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; de um pesadelo após indigestão por caranguejos, como no caso de Drácula, de Bram Stoker; de um atraso de trem que fez J.K. Rowling pensar no mundo de Harry Potter; ou de uma aposta numa noite chuvosa que fez Mary Shelley escrever Frankenstein.

Isso, meus amigos, a OpenAI jamais conseguirá imitar.

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