Itália faz convite inusitado a Carlo Ancelotti
Assim que o juiz apitou o fim do jogo entre Brasil e Noruega, Carlo Ancelotti caminhou rapidamente para o vestiário, sem desviar o olhar. Ignorando a torcida frustrada, o treinador italiano manteve uma expressão séria, como se tivesse cumprido seu dever. Ele fez questão de levantar Vini Jr, que estava deitado no gramado, em um possível sinal de abatimento.
Carlo Ancelotti estava com pressa assim que o juiz apitou o fim do jogo entre Brasil e Noruega. Nada interrompeu seus passos pesados rumo ao vestiário. Novamente frustrados, os torcedores queriam pelo menos um clima de desolação. Mas não. O treinador italiano andou convicto, sem olhar para os lados, com um ar gélido para demonstrar a sensação de dever cumprido. Fez questão de levantar, com força, Vini Jr, que estava deitado, em um prenúncio de abatimento.
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A firmeza das passadas de Ancelotti funcionava como uma negação de que, a partir daquele momento, seus pés já não mais caminharão em terreno tão firme. Até então ele estava protegido pela força de seu currículo. A partir daquele momento, Ancelotti estava exposto. Assolado pelo mesmo constrangimento que se abate sobre qualquer treinador brasileiro que comandou a Seleção em meio a uma saraivada de críticas.
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Minutos depois, de forma protocolar, passou na coletiva o mesmo tom de que nada o abala. E sumiu. A Seleção Brasileira acabara de ser eliminada de uma Copa do Mundo, o que para o povo é de um peso muito grande, e o seu técnico quase não deu mais notícias.
Até agora ele parece incomunicável. A direção da CBF, com seu presidente Samir Xaud enfraquecido, fez uma reunião, para referendar o apoio das federações em torno de seu nome. A entidade definiu metas para o novo ciclo da Seleção Brasileira comandada por Ancelotti: vencer a Copa América de 2028 e terminar em primeiro lugar nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030. A meta já é uma forma de cobrança.
Ancelotti não estava presente na reunião que deu início, teoricamente, ao tão falado novo ciclo. Participou de forma online, segundo se afirmou. Depois, o Campeonato Brasileiro reiniciou e o treinador, lá fora, pode estar perdendo tempo em relação à análise dos jogadores já para a próxima convocação, no início de setembro.
O Brasil está cheio de engenheiros de obras prontas. Ancelotti, com razão, nunca teve paciência para eles. Em casos mais graves, como a maneira pela qual a Seleção foi eliminada, no entanto, alguns destes engenheiros têm legitimidade. Podem ser ouvidos, principalmente se esta roupagem da obra pronta for substituída pela da decepção. Ou ilusão.
Ancelotti iniciou seu trabalho com uma credibilidade que, por seu currículo, o colocava acima de qualquer suspeita. "Ah, o meio-campo do Brasil, com Casemiro, estava aberto, contra o Chile, a ponto de Brereton Diaz entrar livre e finalizar, antes de ser marcado impedimento…", uns diziam.
Outros, concordavam. "Ah, esse tipo de erro vem de longe. Desde 2014, nos 7 a 1, o meio-campo da Seleção Brasileira entra desestruturado. Também assim foi contra a Bélgica e contra a Croácia. Não, Ancelotti é astuto. Ele vai perceber tudo isso."
Mas as convicções não se resumiam às questões táticas. "Ancelotti sabe o que faz, claro que esta lista partiu de seu conhecimento, ele é um treinador experiente, tem noção de quem convoca. Igor Thiago é de sua confiança. Assim como Luiz Henrique. Se ele não trouxe Pedro, sabe o que está fazendo."
A certeza era de que o experiente treinador, que já comandou craques como Pirlo e Kaká, no fim das contas saberia que a criatividade do meio é essencial. "Ah, Ancelotti, optou por não trazer Gérson e Matheus Pereira, do Cruzeiro, porque ele acredita que no seu elenco há jogadores capazes de criar…"
Na Copa, todas essas dúvidas ficaram sem resposta. O meio-campo do Brasil, incrivelmente, continuou aberto em vários jogos. Igor Thiago foi utilizado apenas no primeiro tempo do jogo de estreia e nunca mais voltou. Ficou a desconfiança de que o técnico, que o chamou simplesmente para uma Copa do Mundo, não o conhecia direito. Luiz Henrique também. Destaque em amistosos, ele quase não foi utilizado na Copa.
Enquanto isso, já no início do Brasileiro, Pedro desequilibrava em todas as partidas, prova de que estava em ótima forma. Matheus Pereira, Gérson, e vários outros mostravam exatamente a criatividade que faltou na Seleção.
Novo ciclo para Ancelotti
Ancelotti era tão reverenciado que renovou antes mesmo do resultado na Copa de 2026. Teve um privilégio. Foi respeitado pelo fato de ter assumido a Seleção "apenas" um ano antes da Copa do Mundo. Claro que esta questão de ciclo é fundamental. Mas nem sempre foi determinante. Nunca o técnico de uma Seleção Brasileira campeã do mundo teve um ciclo inteiro de trabalho.
Em 1958, Vicente Feola, técnico campeão, assumiu a Seleção cerca de quatro meses antes da Copa. Em 1962, Aymoré assumiu cerca de um ano e quatro meses antes (pouco mais do que Ancelotti). Em 1970, Zagallo foi chamado às pressas, 70 dias antes.
Carlos Alberto Parreira foi o que teve mais tempo: assumiu em outubro de 1991 e permaneceu até julho de 1994, depois da conquista do tetra. Mas seu ciclo não foi completo.
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No início da Copa de 2002, Luiz Felipe Scolari era o técnico havia 11 meses. Sem dúvida nenhuma, eram outros contextos. Mas, por outro lado, para alguém tão tarimbado quanto Ancelotti, esta explicação não é suficiente.
O período de 14 meses também não é tão pouco tempo assim. Ainda mais em se tratando do futebol brasileiro. Apesar de não ter mais o mesmo número de craques, o Brasil ainda é aquele que mais exporta talentos.
O silêncio de Ancelotti, é verdade, pode ser quebrado a qualquer momento. Nada impede, pelo histórico do treinador, que ele faça a Seleção ressurgir como se espera. No entanto, esse hiato momentâneo soa estranho.
Traz uma mistura de decepção com a sensação de que o técnico já pode estar incomodado com a pressão. Ancelotti não está mais acima de qualquer suspeita. Será cobrado, certamente e veladamente, pelos próprios técnicos brasileiros. Até o fato de a federação italiana tê-lo convidado para dirigir a seleção da Itália causa estranheza. Quem está plenamente firme no cargo, em tese, nem receberia convite.
No futebol e na vida, o tempo passa, como diria o locutor Fiori Gigliotti. Os jogos já recomeçaram no Brasil. A imagem de um treinador que admira o país, presente em eventos simbólicos, deixou de ser suficiente. Por isso, esse um ano e pouco não foi em vão. Mostrou que Ancelotti precisa reconstruir sua relação com a Seleção Brasileira. E isso começa também pela presença nos momentos difíceis.
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