Musk descreve futuro com economia da abundância; Brasil não é mencionado
Em entrevista, Elon Musk discutiu o possível fim do trabalho em uma economia de produtividade ilimitada e a importância da capacidade computacional e da geração de energia. O empresário não incluiu o Brasil em suas projeções sobre o futuro, levantando questionamentos sobre o papel do país nesse cenário.
Uma entrevista polêmica concedida por Elon Musk à revista The Economist nesta semana pôs a humanidade diante de algumas encruzilhadas e, ao mesmo tempo, levanta uma pergunta incômoda: o Brasil está presente nesse mapa do futuro desenhado pelo homem mais rico do mundo?
Musk fala sobre o possível fim do trabalho em uma economia de produtividade quase ilimitada e argumenta que a capacidade computacional e a geração de energia estarão entre os recursos mais importantes desse novo tempo. Se esse estágio for alcançado, estaremos a um passo de discutir a economia da abundância e, consequentemente, o possível fim da escassez como a conhecemos — uma transformação capaz de alterar para sempre diversas questões monetárias que hoje consideramos essenciais.
Lamento informar, mas esses avanços, que, segundo Musk, ocorrerão dentro de cinco a dez anos nos Estados Unidos, talvez nunca cheguem ao Brasil. Em vez de discutirmos uma produtividade quase infinita, ainda estamos presos ao debate sobre a escala 6x1.
Enquanto Musk cita a capacidade computacional e a geração de energia, o Brasil desperdiça suas principais vantagens competitivas nos setores de energia elétrica, alimentos e nutrição animal, sufocados pela ineficiência dos gastos públicos. Por fim, a abundância prevista por Musk depende da desregulamentação, mas o que mais percebo na política brasileira é a preservação da burocracia que impede a liberdade econômica.
Observe o abismo entre esses dois mundos. Para compreender por que a inteligência artificial (IA) pode transformar o trabalho em uma atividade opcional, precisamos retornar à divisão do trabalho de Adam Smith e acompanhar a evolução que nos levou da especialização humana à automação cognitiva.
Essa trajetória nos conduz a três rompimentos de paradigma: o crescimento da produção sem a correspondente criação de empregos; a separação entre trabalho e renda, porque as máquinas poderão produzir riqueza sem receber salários; e a substituição de um sistema que protege cargos por outro que deverá proteger pessoas durante sucessivas transições profissionais.
O problema brasileiro é que ainda tentamos regulamentar o emprego como se a estrutura produtiva do século 20 permanecesse intacta, enquanto o restante do mundo começa a construir uma economia na qual produzir, trabalhar e receber renda poderão deixar de fazer parte da mesma relação.
Outro ponto fantástico apresentado por Musk — e que deveria ser promissor para o Brasil — é nossa vantagem competitiva na geração de energia. Para compreendê-la, relembro três teorias clássicas. Solow demonstrou que o crescimento duradouro nasce da produtividade tecnológica; Romer explicou que o conhecimento produz retornos crescentes; e Douglass North provou que os recursos somente se transformam em desenvolvimento quando encontram instituições eficientes.
A IA reúne essas três dimensões ao converter energia em inteligência, chips em soberania e processamento em capital. O drama brasileiro é possuir a vantagem comparativa da energia, mas permitir que o desequilíbrio fiscal, os juros elevados e a insegurança institucional impeçam sua conversão em vantagem competitiva, condenando o país a fornecer recursos baratos e, no futuro, a comprar a inteligência cara produzida pelos outros.
Finalmente, Musk nos provoca com o possível fim da escassez. Para compreender essa ideia, relembro que Romer demonstrou que o conhecimento gera retornos crescentes; Schumpeter revelou que a abundância nasce da destruição criativa; e Olson explicou como grupos organizados preservam privilégios contra o interesse coletivo.
A revolução tecnológica rompe três pilares da economia tradicional ao permitir que se produza mais sem custos proporcionais, que se gere riqueza sem distribuir salários na mesma medida e que se substituam estruturas antes consideradas permanentes. O desafio brasileiro é que, em vez de converter inovação em produtividade, concorrência e participação patrimonial, nossas instituições protegem ineficiências, tributam quem investe e socializam a escassez, condenando o país a consumir a abundância criada no exterior sem participar de sua propriedade.
Em outras palavras, devemos refletir sobre alguns pontos. Se Musk estiver certo, o Brasil ficará fora do jogo global por incompetência ou falta de vontade de produzir riqueza para sua população. Caso o homem mais rico do mundo esteja errado quanto ao tempo ou à forma, ainda assim devemos permanecer atentos por dois motivos.
Ele pode estar errado quanto ao tempo porque essa transformação poderá acontecer antes de dez anos, criando uma ruptura ainda maior no tecido social. Se levar mais de uma década, teremos algum tempo, mas precisaremos iniciar agora as mudanças necessárias para não perder novamente uma transformação histórica.
Caso Musk esteja errado quanto à forma, o cenário poderá ser ainda pior. Talvez não existam empresários altruístas dispostos a utilizar esse poder em benefício da humanidade, independentemente da nacionalidade ou da localização das pessoas. Se a abundância permanecer concentrada nas mãos de poucos proprietários da tecnologia, teremos poucas chances de mudar nosso destino. Nessa hipótese, nosso passado poderá ser melhor do que o nosso futuro.
Leia também: "Lula quebrou o Brasil", reportagem publicada na Edição 322 da Revista Oeste
O post Enquanto Musk prevê o futuro, o Brasil continua discutindo o passado apareceu primeiro em Revista Oeste.


