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Forty Acres, de Dwayne Alexander Smith, é mais que um thriller de suspense psicológico: é uma fábula moral sobre os limites da Justiça quando esta se divorcia da lei natural. Sob a superfície de um enredo vertiginoso, a obra revela uma arquitetura filosófica que merece ser lida com a seriedade de um tratado contemporâneo sobre o poder, o ressentimento e a corrupção humana.

Ambientado nos dias atuais, o thriller segue Martin Grey, um jovem e bem-sucedido advogado negro que é convidado por um outro renomado advogado a se juntar a um seleto grupo de homens negros de elite. À medida que Martin é levado para conhecer a fazenda particular deste grupo no interior dos Estados Unidos, ele começa a descobrir segredos perturbadores sobre a verdadeira natureza e os métodos utilizados por essa sociedade secreta para alcançar seu sucesso e poder. A obra utiliza o formato do suspense para investigar temas históricos delicados através de uma lente contemporânea e provocativa.

A premissa central ‒ uma elite negra que escraviza homens brancos em nome de uma reparação histórica ‒ não é apenas um artifício narrativo chocante e corajoso. É um espelho colocado diante do leitor para mostrar uma verdade incômoda: a opressão não é uma questão de qual grupo detém o chicote, mas da disposição humana de exercer domínio absoluto sobre o outro quando as circunstâncias permitem. Dwayne Alexander Smith ‒ que também é negro ‒ não escreve um panfleto de vingança satisfeita; escreve uma advertência ensurdecedora para aqueles que se deixam adentrar no mundo da obra. A trama demonstra, com precisão cirúrgica, que inverter os papéis do opressor e do oprimido não corrige historicamente nada ‒ apenas reproduz o mesmo mal sob nova bandeira. Você pode espancar mil brancos, estuprar mil loiras de pele alvejada, ou ainda colocar em ombros caucasianos três sacos de milhos para serem carregados a trezentos metros, mas nada disso aliviará o que aconteceu na escravidão, ou consertará o erro que já foi cometido.

Essa é precisamente a intuição conservadora mais antiga sobre o poder: instituições e ideologias que prometem redenção coletiva por meio da força tendem a recriar, ampliadas, as próprias patologias que dizem combater. O romance ilustra magistralmente a advertência de que a história não se resolve por vingança, mas se aprofunda em novo sofrimento.

Ambientado nos dias atuais, o thriller segue Martin Grey, um jovem e bem-sucedido advogado negro que é convidado por um outro renomado advogado a se juntar a um seleto grupo de homens negros de elite | Foto: Divulgação/Amazon

A lição de Forty Acres

O protagonista, Martin Grey, é a verdadeira coluna vertebral ética da obra. Diante da tentação de aderir a um sistema que lhe ofereceria poder, riqueza e pertencimento a uma “causa”, Grey escolhe algo mais difícil e mais nobre: a fidelidade a uma moralidade que não se dobra a conveniências tribais.

Essa escolha reafirma um princípio essencial ao pensamento ocidental quando ele ainda não havia sido tomado por hienas infectadas com a raiva ideológica: a dignidade humana não é uma variável negociável de acordo com identidades de grupo, raça ou narrativa histórica. Ela é inalienável, ou não é dignidade alguma. Martin Grey personifica o indivíduo que resiste à pressão do coletivo quando o coletivo exige a supressão da consciência pessoal ‒ um dos temas mais recorrentes e valiosos da tradição conservadora desde Burke, diga-se de passagem.

Os sócios de Forty Acres não se enxergam como vilões, todavia. Acreditam sinceramente estar corrigindo uma injustiça histórica, restaurando um equilíbrio cósmico por meio da subjugação de seus opressores. O que me leva a lembrar do espetacular livro do economista liberal, e negro, Thomas Sowell, intitulado A Busca da Justiça Cósmica, no qual ele argumenta que, quando a igualdade deixa de ser um valor medido pela sua praticidade e bonanças dignificadoras, e passa a ser mero grito militante e pautas violentas, o passo seguinte tende a ser a radicalização. E, não muito longe, tal lógica advinda de uma mente militante matou Charlie Kirk

De modo paradoxal, é justamente essa convicção moral absoluta ‒ essa certeza de estar do lado certo da história ‒ que os transforma homens comuns em tiranos completamente imorais. Smith capta, com rara lucidez literária, o mecanismo psicológico por trás de todo projeto utópico: a crença de que fins elevados justificam meios brutais, e que a violência aplicada “com propósito correto” deixa de ser violência e passa a ser justiça. Por mais legítima que seja a memória do sofrimento passado, transformar essa memória em programa de retribuição coletiva de novos escárnios sempre produz novas vítimas, e nunca reconciliação.

Forty Acres ‒ como thriller-suspense ‒ alcança a rara proeza literária de entreter e,  ao mesmo tempo, obrigar o leitor a confrontar questões que a cultura contemporânea frequentemente evita: os limites morais da vingança, a fragilidade das utopias construídas sobre ressentimento e a necessidade de princípios éticos que transcendam a lógica de grupo. É um romance que, sem jamais soar didático, ensina que a única resposta duradoura à injustiça histórica é a reafirmação da dignidade individual ‒ nunca a sua negação recíproca.

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