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Existe uma tentação, ao se lidar com ficção científica contemporânea, de reduzi-la a um mero exercício técnico — engenharia narrativa disfarçada de literatura, onde a emoção humana cede lugar a equações e protocolos de sobrevivência. Devoradores de Estrelas, de Andy Weir, resiste a essa tentação, e é justamente aí que reside sua força. Não que o autor abra mão de um tecnicismo para explicar os meandros da física espacial e da química básica dos seres, mas o faz sem ser maçante, ao menos. Andy Weir constrói uma fábula sobre extinção e salvação que, sob a superfície do rigor científico, esconde uma defesa quase clássica de valores que a cultura contemporânea insiste em tratar como ultrapassados — o sacrifício individual, a competência como critério de valor e a lealdade que nasce do mérito, não da imposição.

O protagonista, Ryland Grace, acorda sem memória, isolado, e é sobre essa amnésia que o romance ergue sua tese mais interessante: a identidade do homem não está em sua biografia, em suas etiquetas sociais ou em sua origem, mas em sua capacidade de agir quando confrontado com a necessidade. Weir despe seu personagem de tudo — nome, passado, vínculos —, e o que resta é o essencial: um homem que pensa, que resolve, que assume o peso de salvar não apenas a si mesmo, mas espécies inteiras. Diante disso, o que salva a humanidade, no livro, não é a representatividade, a política, é a excelência técnica e a escolha moral de seus personagens.

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Num primeiro momento, Grace, não só não sabe quem ele é dentro de uma nave espacial colossal, vagando por outra galáxia, mas como não sabe o que veio fazer nem como foi parar ali. Ele logo descobre, no entanto, que algo ameaça a Terra, descobre que a sua missão é importante o suficiente para ter que se sacrificar pela humanidade. O senso de prioridade, a virtude de elencar moralmente o que precisa ser feito, o autossacrifício dignificante acima dos contornos teóricos, esses com certeza são os temas prediletos dos norte-americanos no pós-Segunda Guerra, e, sem muito pudor, tais temas permeiam quase toda produção cultural daquele país. Amargedon, Independence Day, O Resgate do Soldado Ryan, Coração Valente, Vingadores: Ultimato e Batman: O Cavaleiro das Trevas são alguns exemplos cinematográficos, mas, quando vamos para a literatura norte-americana, tem mais: O Grande Gatsby, Por Quem os Sinos Dobram, Jogos Vorazes e O Sol é para Todos. Em Devoradores de Estrelas, o autor consegue enxergar tal mérito e incuti-lo de maneira competente em seu romance.

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A ameaça central à humanidade, no romance, trata-se de organismos microscópicos que devoram a energia das estrelas, condenando a Terra a um inverno cósmico. O gancho funciona como metáfora poderosa, ainda que talvez sem essa intenção, para a entropia civilizacional como um todo. Um mal invisível, silencioso, que corrói lentamente a fonte de vida, e que só pode ser combatido por quem ainda acredita que a razão e o trabalho duro têm poder sobre o caos. Não há aqui romantismo ingênuo sobre a natureza. A natureza, no romance, é indiferente e cruel, e é precisamente essa indiferença que exige do homem grandeza moral, não vitimismo.

Em meio à exploração espacial, e às descobertas em suas próprias memória, Grace encontra uma segunda nave aparentemente fazendo a mesma exploração que ele, e, dessa nave, um alienígena passa travar comunicação, num dos momentos mais interessantes da obra. A relação entre Grace e o alienígena merece atenção especial, porque é onde o livro mais se afasta do discurso contemporâneo sobre alteridade. A amizade entre os dois não nasce de um mandato abstrato de tolerância, mas de reconhecimento mútuo de competência, de coragem e de propósito compartilhado. Eles não se entendem por decreto ideológico; eles constroem, tijolo por tijolo, câmara a câmara, uma linguagem comum, um código de confiança fundado em ação, não em discurso.

Outros destaques de Devoradores de Estrelas

Outro ponto que merece destaque é a ausência quase total de heroísmo coletivo institucionalizado. As grandes burocracias internacionais aparecem como obstáculos, não como soluções — elas são lentas, contraditórias, movidas por interesses políticos de curto prazo enquanto o relógio da extinção avança. É o indivíduo disposto a pagar o preço mais alto, sozinho, distante de qualquer comitê, que muda o destino da espécie. Weir parece entender, talvez sem pretensão filosófica explícita, algo que o conservadorismo sempre soube: que civilizações não são salvas por comissões, mas por homens dispostos a agir quando ninguém mais o fará. Outro aspecto interessante é que Grace não é o herói sem manchas, ele é competente, mas também é birrento, tornou-se um astronauta/herói da humanidade por imposição, e não por altruísmo. E essa ambiguidade, esse salvo-conduto de não-utopismo, sempre acalenta a literatura séria. O heroísmo de Grace estava mais no ato de não desistir da missão do que no ato de aceitá-la desde o início.

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Há de se criticar algumas coisas, no entanto. Em alguns momentos, parece que o autor cede a uma brisa politicamente correta, quando faz do alienígena uma espécie de transgênero, por exemplo; quanto ao final escolhido, algo sugere que o autor pecou naquilo que praticamente não tinha pecado ao longo de todo o livro: a plausabilidade. Toda ficção científica atua no limiar entre o absurdo e o possível, ou melhor, entre o extraordinário e o ordinário. Parece-me, contudo, que o final escolhido por Weir cruzou demais a linha para o campo da ficção, abandonando quaisquer parâmetros científicos e possibilidades lógicas que o faria crível.

Devoradores de Estrelas não é um tratado político, e seria um erro de leitura forçá-lo a sê-lo. Mas podemos ler em suas entrelinhas, sim, um romance que celebra virtudes que a cultura "progressista" tenta constantemente dissolver: a excelência técnica e a virtude moral, a amizade fundada no mérito, o indivíduo como motor da história diante da paralisia coletiva, além do sacrifício como ato de sentido, não de vitimismo. Numa época em que a ficção científica frequentemente serve de veículo para pedagogias ideológicas, encontrar uma obra que, mesmo sem intenção declarada, reafirma essas verdades antigas é, por si só, motivo de reflexão — e de gratidão.

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