EDIÇÃO DO DIA · 06 de setembro de 2026 --:--:-- COLUMBUS 23ºC
AO VIVO

BRASIL ESTADO

O padre que conquistou a televisão norte-americana

Faltavam 30 segundos para o começo da transmissão quando uma voz atravessou o Teatro Adelphi, em Manhattan. A plateia fez silêncio. Os refletores iluminaram o palco e, cinco segundos antes de entrar no ar, uma música suave começou a tocar. Então Fulton J. Sheen apareceu. O bispo vestia batina preta com detalhes roxos, capa episcopal, solidéu e uma cruz dourada sobre o peito. Fez uma reverência

Faltavam 30 segundos para o começo da transmissão quando uma voz atravessou o Teatro Adelphi, em Manhattan. A plateia fez silêncio. Os refletores iluminaram o palco e, cinco segundos antes de entrar no ar, uma música suave começou a tocar. Então Fulton J. Sheen apareceu.

O bispo vestia batina preta com detalhes roxos, capa episcopal, solidéu e uma cruz dourada sobre o peito. Fez uma reverência sob os aplausos, voltou o rosto para uma das três câmeras e começou: “Amigos, obrigado por me permitirem entrar novamente em suas casas”.

Era uma imagem improvável para o horário nobre da televisão norte-americana. Às terças-feiras, às 8 da noite, Sheen enfrentava Milton Berle, principal comediante da primeira era da TV, e Frank Sinatra. Ele, por sua vez, passava quase meia hora diante das câmeras falando sozinho, recorrendo apenas a um quadro-negro de vez em quando.

Life Is Worth Living (A Vida Vale a Pena, em tradução livre) havia estreado em 12 de fevereiro de 1952 na pequena rede DuMont, inicialmente em apenas três emissoras, em Nova York, Washington e Chicago. A rede investira pouco numa atração colocada diante de dois dos maiores nomes do entretenimento. Meses depois, porém, a revista Time encontraria outro cenário: o programa já chegava a 17 emissoras, recebia 8,5 mil cartas por semana e levava Sheen a mais de 2 milhões de telespectadores.

Setenta e quatro anos depois daquela estreia, o homem que transformou um programa religioso numa atração de horário nobre volta aos holofotes. Em setembro, a autobiografia de Fulton Sheen chega ao Brasil pela Minha Biblioteca Católica, com o título Tesouro em Vaso de Barro. O lançamento coincide com sua beatificação, em 24 de setembro.

Autobiografia do arcebispo norte-americano Fulton Sheen, lançada no Brasil por ocasião de sua beatificação ^| Foto: Minha Biblioteca Católica/Divulgação

Antes da televisão, duas décadas de rádio

Quando Life Is Worth Living estreou, em 1952, Sheen já havia passado mais de 20 anos aprendendo a traduzir filosofia e religião para um público de massa. Professor de filosofia na Universidade Católica da América, em Washington, entrou no rádio em 1928, quando foi convidado para pregar em uma emissora de Nova York. Dois anos depois, passou a falar nacionalmente no programa The Catholic Hour, da NBC, onde continuaria por duas décadas.

Ao migrar para a televisão, Sheen percebeu que mudar de meio exigia mudar de linguagem. “A abordagem teve de ser diferente”, escreveu. No rádio, falava em nome de uma organização católica. Na televisão comercial, procurou dirigir-se a católicos, protestantes, judeus e pessoas sem religião. Em vez de começar pela doutrina, partia de “algo que fosse comum ao público” e avançava dali para questões morais e religiosas. “E funcionou.”

Fulton Sheen em seu escritório | Foto: ABC Radio/Wikimedia Commons

A aparência de improviso escondia a preparação. Sheen chegava a dedicar 30 horas a um único programa. Durante a semana, testava ideias com amigos e funcionários da emissora. Fazia poucas anotações. Na véspera, ensaiava andando pelo escritório. Também assistia a outros programas de televisão, tanto para descansar quanto para aprender como o meio funcionava.

A preparação é um dos aspectos destacados por Jefferson Bombachim, da Minha Biblioteca Católica, responsável pela edição brasileira da autobiografia. “O que mais chama atenção ao ler as memórias de Fulton Sheen é perceber que, para além do talento e do carisma, sua capacidade de comunicação era fundamentada em muito estudo.”

Pouco antes de entrar no ar, costumava passar cerca de dez minutos em meditação. Na transmissão, falava sem roteiro, fichas ou sequer um esboço escrito. O diretor havia planejado avisá-lo várias vezes sobre o tempo restante; Sheen pediu apenas um sinal próximo do fim. À Time, afirmou que, em 25 anos de rádio e televisão, nunca havia terminado uma transmissão mais de dois segundos antes ou depois do horário previsto. Seu método era simples: sabia de antemão como terminaria a palestra e quanto tempo levaria para dizer a conclusão. Quando restava exatamente esse tempo, começava a encerrá-la.

Durante quase meia hora, Sheen abria e fechava os braços, apontava o indicador para cima, mudava o ritmo da fala, alternava humor e seriedade e olhava diretamente para a lente. O autor Christopher Owen Lynch, que dedicou um livro ao fenômeno televisivo de Sheen, observa que a tecnologia da televisão da época favorecia justamente os primeiros planos: as câmeras eram pouco móveis, os cenários limitados, e o rosto do apresentador ganhava importância. Sheen explorava essa proximidade para criar no espectador a sensação de que falava diretamente com ele.

Os 4 roteiristas

O telespectador também quis falar diretamente com o bispo. Sheen recebeu centenas de milhares de cartas durante os anos de televisão, e disse que destruiu boa parte delas para preservar a privacidade dos remetentes.

Em seu primeiro ano na TV, Sheen ganhou o Emmy de personalidade televisiva de destaque. Ao receber o prêmio, agradeceu a seus “quatro roteiristas”: “Mateus, Marcos, Lucas e João”. O sucesso também levou o bispo à capa da revista Time. Entre 1952 e 1956, pesquisas o colocaram entre os dez homens mais admirados do país.

Fulton Sheen figura na capa de uma das principais revistas norte-americanas | Foto: Revista Time/Reprodução

No auge, Life Is Worth Living chegou a um alcance estimado de 30 milhões de pessoas por semana, somadas as transmissões de cerca de 500 emissoras de televisão e rádio. A estimativa consta do decreto de 2012 em que Bento XVI reconheceu as virtudes heroicas de Sheen, destacou seu uso da tecnologia para difundir a mensagem cristã e o definiu como um “sincero apóstolo da era moderna”.

Uma pesquisa feita em 1955 concluiu que Life Is Worth Living era tão popular quanto os seis programas religiosos seguintes somados. Segundo o estudo, 75% do público era católico, 13% protestante, 8% vinha de famílias com diferentes tradições religiosas e 2% era judeu.

Comunismo condenado

O combate ao comunismo era parte importante do repertório de Sheen. Em sua autobiografia, conta que leu Marx, Lenin e Stalin e tratava o marxismo como uma filosofia rival do cristianismo. Para ele, comunismo e cristianismo ofereciam respostas opostas sobre o homem, a religião e a sociedade. “O ateísmo e a economia do comunismo são inseparáveis”, escreveu. À revista Time, afirmou em 1952 que “os dois grandes movimentos missionários que disputam a humanidade são o comunismo e o cristianismo”.

Assim, quando Life Is Worth Living chegou à televisão, Sheen levou consigo um assunto que estudava havia muito tempo. Entre os episódios do programa estavam “A filosofia do comunismo”, “Por que alguns se tornam comunistas”, “O papel do comunismo e o papel da América”, “A vida e o caráter de Lenin” e “Dostoiévski, o homem que melhor conheceu o comunismo”.

Uma dessas transmissões daria origem a uma das histórias mais lembradas sobre Sheen. Em 24 de fevereiro de 1953, ele adaptou diante das câmeras a oração fúnebre de Júlio César, de Shakespeare, substituindo os personagens romanos por dirigentes soviéticos. Ao falar de Stalin, imaginou que o ditador um dia compareceria ao julgamento de Deus. Nove dias depois, Stalin morreu. A coincidência alimentou a fama de que Sheen havia previsto a morte do líder soviético.

Fulton Sheen posa ao lado de uma imagem de Nossa Senhora | Foto: Fred Palumbo/Library of Congress

A nova era da televisão

Em poucos anos, porém, a televisão norte-americana mudou. Novos recursos ampliaram as possibilidades de imagem e movimento, e o horário nobre passou a oferecer atrações visualmente mais sofisticadas. O formato de Sheen permaneceu essencialmente o mesmo. Aquilo que havia funcionado tão bem no começo da década começou a perder espaço.

A própria indústria atravessava mudanças. A DuMont, pequena rede que havia colocado Life Is Worth Living no ar em 1952, entrou em crise e desapareceu em meados da década. Sheen transferiu-se para a ABC e passou a enfrentar uma concorrência mais difícil, que incluiu o comediante Groucho Marx e a sitcom I Love Lucy, então líder de audiência.

Os índices de Life Is Worth Living caíram, e o programa perdeu seu principal patrocinador, uma fabricante de eletrodomésticos. Mesmo assim, a ABC bancou Sheen no ar e ofereceu espaço para que continuasse. Em outubro de 1957, porém, o bispo anunciou sua saída da mídia. Publicamente, atribuiu a decisão a “considerações espirituais” e ao desejo de dedicar mais tempo à arrecadação de recursos para missões católicas ao redor do mundo.

Reproduzir

Ao todo, foram 127 episódios entre fevereiro de 1952 e abril de 1957. Sheen ainda voltaria à televisão em outros programas e, nos anos 1960, chegaria às transmissões em cores, mas nunca recuperou a projeção. Morreu em Nova York em 9 de dezembro de 1979, aos 84 anos.

“Em uma época dominada pelas redes sociais, Sheen continua atual justamente por nos recordar que a eficácia da comunicação não começa na plataforma utilizada, não se baseia no sensacionalismo, mas sim na verdade daquilo que se transmite e na vida de quem comunica”, considera Bombachim.

Sete décadas depois de Life Is Worth Living, os aparelhos mudaram. A tela ficou menor, saiu da sala e, sensível ao toque, foi parar nas mãos. O desafio enfrentado por Sheen continua: encontrar a linguagem certa e falar com cada um do outro lado da tela, mesmo diante de uma multidão.

Leia também: “Um quarto de século, quatro papas e uma Igreja viva”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 303 da Revista Oeste

O post O padre que conquistou a televisão norte-americana apareceu primeiro em Revista Oeste.

Leia também

VER TODAS ›