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O voto inócuo

No fim de A Democracia na América, Tocqueville descreve um tipo de despotismo que, segundo ele, ainda não tinha nome. É um poder enorme e protetor. Não persegue ninguém: administra. Não quebra a vontade das pessoas: apaga essa vontade aos poucos. Não escraviza: trata o cidadão como criança . Contra esse poder, o cidadão tem uma arma só, o voto. Este ensaio trata de como essa arma foi neutralizad

No fim de A Democracia na América, Tocqueville descreve um tipo de despotismo que, segundo ele, ainda não tinha nome. É um poder enorme e protetor. Não persegue ninguém: administra. Não quebra a vontade das pessoas: apaga essa vontade aos poucos. Não escraviza: trata o cidadão como criança . Contra esse poder, o cidadão tem uma arma só, o voto. Este ensaio trata de como essa arma foi neutralizada no Brasil sem nunca ter sido proibida. As eleições acontecem, são disputadas, há alternância. E mesmo assim troca-se o ocupante do cargo sem que mude quem governa.

Rousseau já tinha dito isso, e sem meias palavras: o povo inglês se acha livre, mas se engana; só é livre no dia da eleição, e assim que elege seus representantes volta a não ser nada. Hoje a frase descreve menos uma profecia do que uma rotina. O voto é neutralizado de três maneiras: por cima, pelo que saiu da disputa eleitoral; por fora, pelo que já foi decidido antes de a pessoa votar; e por dentro, pelo que é negociado depois do voto. A terceira é a mais importante e a que menos se discute.

Por cima: o que não se vota

A defesa do poder do Judiciário no Brasil vem de Locke. O tribunal existiria para proteger direitos contra a maioria do momento; o poder é um encargo de confiança e a Corte cuida desse encargo. Aceite o argumento e olhe a prática. Um tribunal nos moldes de Locke decide pouco, decide pela regra e é previsível, porque o papel dele é marcar limites, não ocupá-los. Um tribunal que decide sobre orçamento, costumes, comunicação, briga entre partidos e política criminal não está limitando o poder: está usando o poder. E, quando a regra não explica a decisão, sobra outra justificativa, que é a de Hobbes: alguém precisa dar a última palavra para a briga acabar.

Hobbes assume isso abertamente. A versão brasileira não assume, porque cita Locke e funciona como Hobbes. Hegel, sem querer, descreveu como esse tipo de instituição se enxerga: uma burocracia que se considera a guardiã do interesse de todos, acima dos interesses particulares de uma sociedade que não saberia se governar sozinha. O efeito sobre o voto é simples. Todo assunto que passa a ser decidido pelo tribunal sai da disputa eleitoral e não volta mais: nenhum candidato, nenhum programa e nenhuma maioria no Congresso o trazem de volta. O eleitor continua votando — sobre uma lista de assuntos que diminui.

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Por fora: o que não se pensa

Rousseau costuma ser lido como antepassado da esquerda. Serve melhor como acusação. Para ele, vontade geral não é o que um grupo esclarecido decide ser bom para o povo. É o que sai da participação real das pessoas na feitura das leis. A diferença entre vontade geral e vontade de todos está no objetivo — o bem comum, e não a soma dos interesses de cada um —, nunca em quem tem autoridade para falar em nome dela. Quando alguém apresenta a segunda coisa como se fosse a primeira, acontece justamente o que Rousseau temia: um interesse particular se passando por interesse de todos.

Mill temia a maioria numérica esmagando quem discorda. No Brasil funciona ao contrário. Um grupo pequeno, mas bem colocado nos lugares onde a opinião se forma, define quanto custa discordar. Quem discorda se cala não por ser minoria, mas por estar sozinho — Tocqueville já tinha notado que a democracia não impede ninguém de pensar, ela só garante que quem pensa diferente fique isolado. Votar exige ter opinião formada. Quando o custo de falar decide o que se fala, o eleitor chega à urna com as opções já reduzidas.

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Por dentro: o balcão

Aqui a palavra precisa ser exata. Não se trata de empresa nem de mercado em geral. Trata-se de um mercado específico, com moeda, preço e intermediários, no qual o mandato ganho no voto vira mercadoria.

O Orçamento de 2026, aprovado em 19 de dezembro de 2025, reservou cerca de R$ 61 bilhões para emendas parlamentares: R$ 26,6 bilhões em emendas individuais de pagamento obrigatório, R$ 11,2 bilhões em emendas de bancada também obrigatórias, R$ 12,1 bilhões em emendas de comissão e R$ 11,1 bilhões dentro da programação dos ministérios. Diante de uma despesa total de R$ 6,5 trilhões, parece pouco. É aí que a conta engana. O poder desse dinheiro não está no tamanho, está no tipo. É dinheiro livre, que o parlamentar escolhe onde aplicar e pode dizer que é dele. Quando quase todo o resto do orçamento já está comprometido, é essa sobra que manda.

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O que se forma é um circuito fechado, e ninguém precisa ter má intenção para ele funcionar. A emenda escolhe o destino do dinheiro; o destino define o contrato; o contrato sustenta a base no município; a base garante a reeleição; a reeleição devolve o direito à emenda. O Executivo, que precisa de maioria e não conseguiu essa maioria nas urnas, compra o apoio nesse balcão com cargos, liberação de verba e prazo. Nada disso é ilegal, e o problema é exatamente esse: a captura não vem da corrupção, vem do desenho. A parte mais escondida do arranjo, as emendas de relator do chamado orçamento secreto, só parou depois de uma decisão do Supremo, e não por deliberação do próprio Congresso — o que confirma o diagnóstico em vez de desmentir. Plutocracia, aqui, não é figura de linguagem nem xingamento: é a descrição do que acontece quando a divisão do dinheiro público passa a depender de quem consegue comprar apoio, e não do resultado da eleição.

Locke dá o critério mais claro: o poder político é um encargo de confiança, e a tirania começa quando quem recebeu esse encargo passa a usá-lo em proveito próprio. Quem transforma o mandato em dinheiro não está infringindo a lei — está traindo o encargo. Bentham é útil por um lado dele de que quase ninguém lembra: foi quem criou a expressão interesse sinistro, o interesse dos poucos que governam quando esse interesse se choca com o de todos, e foi por causa disso que defendeu mudar o Parlamento a fundo. Bentham não é o tecnocrata da história; é quem enxergou o balcão antes. E Hobbes fecha o raciocínio: para ele, o representante age no lugar do representado, então os atos dele pertencem a quem o elegeu. Com o mandato vendido, o cidadão continua dono de atos que nunca autorizou.

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Por que o voto não corrige

Fica a pergunta: se o arranjo incomoda, por que a eleição não acaba com ele? A melhor resposta usa o método de Marx contra as conclusões de Marx. O método manda não perguntar o que uma ideia diz, e sim a que interesse ela serve. Faça o teste: governos de esquerda e de direita se revezaram, e o valor das emendas, a obrigação de pagá-las e a falta de transparência aumentaram com todos. Um mecanismo que atravessa intacto todas as trocas de governo não é aquilo que está em disputa — é o terreno onde a disputa acontece. Nas urnas se disputa a fachada; a estrutura fica de pé.

Por isso os três não precisam combinar nada entre si, e não há sinal de que combinem. O que existe é uma coincidência de interesses: os três dependem de um cidadão que não decide. E a tutela se prova sozinha — quem é tratado como incapaz acaba agindo como incapaz, e aí o tratamento ganha a sua justificativa.

A objeção honesta

Quatro contra-argumentos precisam aparecer. Levar tudo para o Judiciário não é invenção brasileira nem recente: acontece no mundo todo desde o pós-guerra, é acionado por todos os lados conforme a conveniência e responde, em boa parte, a uma Constituição que colocou políticas públicas dentro do próprio texto constitucional. A tese do consenso imposto de cima precisa explicar por que ele não vira voto; a resposta provável é que ele age sobre o custo de falar em público, não sobre o que a pessoa pensa em casa. As emendas obrigatórias nasceram de uma reclamação justa: antes delas, o Executivo usava a liberação de verba como chicote sobre o Congresso. E o presidencialismo de coalizão, desde que Abranches lhe deu nome, tem defensores sérios, que veem nele a única forma de governar um país com dezenas de partidos. Quem escreve sobre tutela não deve tutelar o leitor escondendo o que enfraquece o próprio argumento.

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O que resta

Tocqueville aponta três remédios contra esse despotismo brando: um freio moral que não venha do Estado, descentralização de verdade e cidadãos que se associem. O Brasil falha nos três, e a falha no terceiro é a pior, porque é a única que não depende de mudar nenhuma instituição. Associação é hábito, não é lei. Enquanto o espaço entre a pessoa e o Estado continuar vazio, alguém vai ocupá-lo — e quem ocupa não precisa querer mal a ninguém. Basta chegar primeiro. O voto não foi tirado do brasileiro; foi esvaziado enquanto ele continuava votando.

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Marcelo Ladvocat é doutor em economia e professor na Unialfa

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