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Políticos passam, a cultura fica

Começou a suruba quadrienal brasileira e, pelo visto, já está liberado brigar com parentes e vizinhos por causa de Lula e Bolsonaro. Estava com saudades, confesso. Nas últimas três eleições, fiquei conhecido por analisar a política do nosso país com opiniões ácidas, a partir de uma visão conservadora, em textos publicados na Gazeta do Povo, na Jovem Pan, no Instituto Liberal etc. Não foram pouca

Começou a suruba quadrienal brasileira e, pelo visto, já está liberado brigar com parentes e vizinhos por causa de Lula e Bolsonaro. Estava com saudades, confesso. Nas últimas três eleições, fiquei conhecido por analisar a política do nosso país com opiniões ácidas, a partir de uma visão conservadora, em textos publicados na Gazeta do Povo, na Jovem Pan, no Instituto Liberal etc. Não foram poucas as pessoas que passaram a me seguir. Talvez por isso, muitos me perguntem por que não estou escrevendo sobre política em minhas colunas e nas redes sociais. Por que não estou usando o espaço que a Oeste me oferece para conscientizar o eleitorado e defender os candidatos conservadores? Será que debandei?

Bem, para começar, isso não é totalmente verdade. Vez ou outra, falo de política por aqui. A crítica, contudo, não é de todo infundada, devo admitir. A resposta é relativamente simples.

Antes de apresentá-la, preciso passear pelas opções que a esquerda brasileira gentilmente nos oferece neste ano. Há o rapper e historiador Hertz Dias (PSTU), que quer estatizar todo o sistema bancário e expropriar os bens dos ricos; a dentista Samara Martins (UP), cujas propostas de governo incluem “estatização do transporte público”, “controle estatal do preço dos alimentos” e “socialização de todas as grandes empresas”; e o veterinário Wilson Grassi (Democrata), que pretende levar ao SUS o inadiável projeto “Meu Botox, Minha Vida”. O mais engraçado, porém, continua sendo Lula, que afirmou há uma semana que, agora sim — como se tivesse acabado de se lembrar de uma promessa feita quando estava bêbado —, seu quarto mandato “será para mudar” o Brasil.

Como diria a profética Bruxa da Vassoura, do desenho Pica-Pau: “E lá vamos nós”.

Ah, sim. Estava me esquecendo: Zé Dirceu está aí de novo.

O Brasil está longe de ser o país da impunidade. Antes disso, somos o país do inacreditável, da cegueira saramaguiana. O país de um presidente que, em troca de votos, ainda promete picanha ao eleitorado em pleno século 21, como os capitães do século 19 prometiam farinha e carne de porco aos miseráveis do sertão.

A cada dia, fico mais convencido de que a atual política nacional não merece meu tempo nem meu esforço. Não que eu tenha abandonado definitivamente o assunto nas conversas particulares ou que, como disse no início, não escreva a respeito vez ou outra. Sou declaradamente conservador e não preciso fingir isenção, até porque votar na esquerda, para mim, não é sequer uma opção.

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores durante o desfile de 7 de Setembro, em Brasília - 7/9/2022 | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O que sinceramente me desencoraja é perceber que grande parte do povo brasileiro se conforma em permanecer nessa caverna montada pela esquerda desde os anos 1990. É uma população resignada a alimentar palhaços e taxidermistas confessos. Creio firmemente que, se quisermos uma mudança real, permanecer presos à mesquinharia da política partidária será pura e simples perda de tempo.

Devemos, sim, nos envolver com essa política, mas com pragmatismo e sem paixão. Precisamos ter consciência de que não será por meio dela que conseguiremos estabelecer liberdade e ordem duradouras.

O simples fato de Lula ainda contar com apoio, depois do achincalhe público e notório a que submeteu o país na década passada, é prova mais do que suficiente de que, no Brasil, damos mais atenção aos empalhados do que aos vivos, mais às arengas do que aos fatos. É um masoquismo que não se vence com argumentos racionais, pois a razão é a primeira a morrer em um cérebro militante.

Respeito a política em seu sentido mais amplo. Respeito-a o suficiente para não misturá-la a essa farofa de senis e cegos. Por isso, sobretudo nos últimos dois anos, preferi concentrar minha vida na cultura e na literatura, esferas em que — ao lado da família e da religião — se forma o caráter dos indivíduos.

Não me julguem um Pilatos purinho. Apenas prefiro gastar meu tempo com o substrato do que realmente importa. Quase não falo mais de política porque, atualmente, sempre tenho algo melhor a fazer: ler um bom livro, ensinar meu filho a ler também, chantagear meu enteado para que torça pelo São Paulo, obedecer à minha esposa e, por fim, tentar explicar aos relativistas que me cercam que o belo e o bom existem.

Estou profundamente convencido de que chegamos a esse ponto porque, em algum momento, negligenciamos tudo o que sustenta aquilo que realmente importa no Ocidente. Em algum momento, a direita decidiu que fazer política era mais promissor do que cuidar da família, produzir cultura, caminhar com os filhos e falar sobre literatura e arte. Pois bem: a esquerda ocupou esses espaços e cá estamos novamente, com socialistas no poder, a imprensa transformada em poleiro de militantes e as universidades convertidas em tubos de ensaio de ideólogos.

Lula fez o gesto com o dedo do meio enquanto discursava sobre o acesso à saúde em evento no Palácio do Planalto | Foto: Divulgação/Redes sociais

Recuso-me a participar do mesmo jogo dessa direita de ejaculação prematura. Vou votar na direita, sim. Logo depois de apertar “Confirma”, porém, voltarei tranquilamente aos meus livros, à minha casa e à minha paróquia. E lá? Lá falarei daquilo em que acredito e do que vivo. Falarei da beleza da cultura ocidental, da fé cristã e do casamento.

Minha militância, hoje, está aqui — e tão somente aqui.

Leia também: "Os esquecidos do 8 de janeiro", reportagem publicada na Edição 336 da Revista Oeste

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