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PT divulga carta com citações bíblicas para evangélicos

O Partido dos Trabalhadores divulgou uma carta ao final do IV Encontro Nacional de Evangélicos, em Brasília, repleta de citações bíblicas. O documento elogia políticas do governo Lula e manifesta apoio à continuidade do projeto político do presidente, afirmando que o compromisso não decorre do uso eleitoral da fé.

"Graça e paz!" É com essa saudação que começa a carta divulgada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) ao fim do IV Encontro Nacional de Evangélicos, realizado em Brasília, em 8 de junho. Repleto de citações bíblicas, o documento elogia políticas públicas do governo Lula e declara apoio à continuidade do projeto político do presidente. Divulgado a quatro meses das eleições, o texto afirma que esse compromisso "não nasce do uso eleitoral da fé".

O encontro marca mais uma tentativa de se apresentar como aliado do grupo religioso que mais cresce no Brasil. Segundo o Censo, os evangélicos passaram de 21% da população, em 2010, para 26%, em 2022, uma alta de cinco pontos porcentuais. Os católicos ainda são maioria, com 56%, mas perderam oito pontos no período.

A dificuldade de diálogo não é nova. Em artigo publicado em 1994, o sociólogo petista Paul Freston relatou uma conversa com o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, um dos líderes do Movimento Evangélico Pró-Lula. Ele relata que um dirigente do partido admitiu "não entender nada" do universo evangélico. Para ele, tratava-se apenas dos entusiasmados pregadores da Praça da Sé, no centro de São Paulo.

Mesmo assim, o PT contava com parcela considerável do eleitorado evangélico. Em 2002, quando Lula disputou votos com o presbiteriano Anthony Garotinho, o petista mobilizou 20 mil militantes para distribuir uma "carta aos evangélicos" nas portas das igrejas. Na reta final da campanha, foi recebido na Primeira Igreja Batista de Santo André pelo Comitê Evangélico Pró-Lula. Diante de pastores e fiéis, prometeu aproveitar a experiência das igrejas no desenvolvimento de políticas sociais e apresentou o PT como um partido aberto à diversidade religiosa.

A estratégia funcionou. Naquele ano, o petista recebeu quase 60% dos votos dos evangélicos, segundo levantamento publicado em revista acadêmica da Universidade Estadual de Campinas. Na posse do primeiro mandato, o pastor Silas Malafaia — hoje apoiador fervoroso da família Bolsonaro — pediu a bênção de Deus para o novo presidente em uma oração pública. Em 2006, Lula voltou a buscar o eleitorado evangélico ao participar da Assembleia de Deus Madureira, no Rio, onde recebeu oração de pastores e reafirmou o compromisso com a liberdade religiosa.

Em 2022, o cenário se inverteu: Lula obteve a preferência de apenas 31% dos evangélicos, enquanto Bolsonaro conquistou 65% dessa parcela do eleitorado.

Quando o PT perdeu os evangélicos

Ironicamente, a esquerda teve grande responsabilidade em despertar essa oposição ativa, por meio de ofensivas nas pautas de costumes. De acordo com o pastor Samuel Silva, autor do livro Evangélicos: ignorantes, pretos, pobres, pardos periféricos ou protagonistas?, apesar de a bancada evangélica existir no Congresso desde a virada do século, foi só em 2010 que o grupo passou a atuar de forma organizada em defesa de uma agenda conservadora, em reação ao projeto "Escola sem Homofobia”. O chamado “kit gay”, elaborado pelo Ministério da Educação de Fernando Haddad, consistia em uma cartilha de mais de 100 páginas, boletins e vídeos para promover pautas LGBT em escolas. A implementação foi cancelada em maio de 2011, já no governo de Dilma Rousseff, diante dos protestos de parlamentares cristãos.

O ano de 2010 registrou outros marcos para a formação da “direita evangélica” que hoje se vê no Brasil. Gutierres Siqueira, teólogo e autor do livro Quem tem medo dos evangélicos?, lembra que a discussão do aborto foi relevante nas eleições daquele ano. Quando eleita, Dilma prometeu não pautar o aborto, e cumpriu a promessa. “Porém, nomeou uma secretária de Mulheres favorável ao tema e indicou ministros para o Supremo, especialmente Luís Roberto Barroso, também favoráveis ao aborto”, recorda o pesquisador. “Isso deixou uma sensação de traição ao compromisso entre parte da liderança evangélica que ainda apoiou Dilma em 2010.”

Foi nesse período que a relação começou a se deteriorar. A ruptura política apareceria de forma mais evidente nas eleições de 2018 e permaneceria em 2022. Gutierres projeta a mesma resistência à esquerda para 2026. “Em termos de pensamento ideológico, os evangélicos brasileiros espelham os evangélicos norte-americanos. A direita evangélica já existe nos Estados Unidos desde a década de 1980, então era questão de tempo para chegar no Brasil.”  

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VÍDEO DA CAMPANHA “ESCOLA SEM HOMOFOBIA” - PARTE DO “KIT GAY”

Nos anos seguintes, esse afastamento abriu espaço para uma aproximação entre o eleitorado evangélico e Bolsonaro. A Marcha para Jesus, principal evento do calendário evangélico, tornou-se um dos principais símbolos dessa mudança. Em 2019, Bolsonaro tornou-se o primeiro presidente da República a participar da celebração. No palco, lembrou que havia prometido voltar ao evento caso fosse eleito e agradeceu aos evangélicos pelo apoio recebido nas urnas. Desde então, participou de outras edições da marcha, sempre tratado como um dos principais convidados.

O PT percorreu o caminho inverso. Desde 2023, Lula passou a ser representado na Marcha para Jesus pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, diácono de uma igreja batista em Brasília. Na primeira participação, bastou anunciar que levava uma mensagem do presidente para ser interrompido por vaias. Dois anos depois, a estratégia mudou: Messias subiu ao palco sem citar Lula, reservando a entrega da carta do presidente para um encontro separado com os organizadores do evento.

Duas visões de mundo

Para Gutierres, a dificuldade de diálogo entre a esquerda e os evangélicos nasce de uma divergência mais profunda. “A formação intelectual da esquerda carrega uma desconfiança da religião”, afirma. “Ela até tolera o religioso, mas desde que ele não abra a boca.” Para ele, a própria teologia evangélica favorece posições conservadoras. “O evangélico tende a ser mais conservador porque gira em torno de três eixos: a missão da evangelização, a Bíblia como palavra de Deus e a conversão, a transformação de vida”, explica. “Mas é uma conversão não para a sociedade, é uma conversão do indivíduo com Deus.”

Samuel chega à mesma conclusão por outro caminho. “Para o marxismo, pecado é alienação: alienação do lucro, de um padrão de vida melhor”, afirma. “A salvação não visa a colocar o indivíduo na eternidade, mas a uma libertação política.” Para ele, essa diferença torna inevitável o conflito entre a agenda progressista e os valores evangélicos.

Os dois teólogos também associam essa visão de mundo ao crescimento do conservadorismo nesse segmento. Gutierres destaca o papel do pentecostalismo, que se expandiu nas periferias e construiu uma ampla rede de apoio independente do Estado. “É uma teologia individualista, no sentido da valorização do indivíduo empreendedor”, resume.

Samuel descreve essa lógica pela experiência cotidiana dos fiéis. “Esse público rejeita ser assistido, dependente”, diz. “Busca conquistar autonomia através do trabalho duro, do empreendedorismo e da rede de cuidado que a própria igreja cria.” E conclui: “As pessoas que estão lá na ponta entendem que o Estado é negligente e omisso; quem chega é a igreja.”

Correndo atrás do prejuízo

Brigar com os evangélicos pode ser uma estratégia política, mas deixa de fazer sentido quando eles passam a decidir eleições. Depois de duas derrotas consecutivas nesse eleitorado, a esquerda passou a correr atrás do prejuízo e voltou a tentar se aproximar dos cristãos. Houve relativo sucesso entre alguns pastores de igrejas históricas, como luteranas, batistas e presbiterianas, que representam cerca de 15% dos evangélicos brasileiros. No começo da década de 2010, ganhou força a Missão Integral, versão protestante da Teologia da Libertação, que revelou nomes como Ariovaldo Ramos, hoje filiado ao PT, e Ed René Kivitz.

Essa aproximação costuma vir acompanhada do abandono de doutrinas centrais do cristianismo. Kivitz causou forte repercussão no meio evangélico ao defender, em 2020, a necessidade de "atualizar a Bíblia". No mesmo ano, durante mesa-redonda no canal GNT, da Rede Globo, o pastor Henrique Vieira, que viria a se eleger deputado federal pelo Psol dois anos depois, negou publicamente a ressurreição de Cristo.

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Também fica entre os crentes a percepção de que a disposição amigável do esquerdista vai durar apenas até o fim do segundo turno. "Na ponta do iceberg o discurso é respeitoso, democrático, inclusivo", diz Samuel. "No dia a dia, o que nós percebemos é intolerância." É por isso que cartas como a divulgada pelo PT encontram pouca credibilidade entre os evangélicos: a experiência de hostilidade vivida por estudantes e profissionais cristãos em instituições aparelhadas pela ideologia, como universidades públicas, pesa mais do que acenos feitos em ano eleitoral. Para muitos fiéis, a esquerda continua tratando os evangélicos como uma massa homogênea, manipulável e ignorante. 

Essa avaliação é compartilhada por Rafael Satiê, vereador eleito no Rio de Janeiro em 2024, que atua como pastor na zona norte da capital. Quem visita suas redes sociais sequer desconfia de sua atuação religiosa. Ao comentar a carta do PT, porém, falou como líder evangélico. “A carta mistura citações bíblicas com propostas de governo e defende a reeleição do Lula em 2026, mas tem um grande detalhe que a maioria não percebeu: essa carta evita completamente as pautas de costumes”, afirma em vídeo publicado no Instagram. “Na boa, sabe por que essa carta existe? Porque o Lula está perdendo feio entre os evangélicos.”

O vereador afirma que as pautas defendidas pelo PT são incompatíveis com a doutrina protestante. “Quem defende o aborto não pode defender a vida que Deus criou”, declarou. “Quem defende ideologia de gênero não pode defender que Deus os criou homem e mulher. Quem defende a descriminalização das drogas não pode defender que o corpo é templo do Espírito Santo. Quem financia a destruição da família não pode dizer que defende os valores do Reino de Deus.”

Além de Satiê, a direita evangélica brasileira inclui nomes como o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, pastor presbiteriano, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que por anos foi intérprete de libras em uma igreja batista no Rio, e a senadora Damares Alves, que foi pastora na Igreja do Evangelho Quadrangular. A atuação deles nas igrejas raramente aparece nas próprias redes sociais; em geral, esse histórico é registrado por terceiros.

Para Gutierres, a cautela é sempre bem-vinda. “Nunca vejo com bons olhos uma associação muito direta da igreja com política. Quando a igreja chega muito próxima ao poder, o poder ganha muito, porque ele ganha um selo de autenticação do religioso, como se aquele candidato fosse um escolhido do próprio Deus”, avalia. “Por outro lado, a igreja no longo prazo tende a perder credibilidade, porque todo o erro daquele grupo político passa a ser o erro da igreja também.” 

O posicionamento é semelhante ao de Samuel. Para ele, é importante que os cristãos participem da vida pública, mas sem transformar a igreja em palanque. O pastor avalia que, desde 2013, o Brasil amadureceu politicamente e passou a compreender melhor a separação entre Igreja e Estado, o que não impede que cristãos disputem eleições ou defendam suas convicções na política. No entanto, considera: "Politizar o púlpito certamente trará muitos prejuízos para a igreja".

Leia também: "Como nasce uma ditadura", reportagem publicada na Edição 332 da Revista Oeste

O post A falsa conversão do PT apareceu primeiro em Revista Oeste.

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