Tempestade no interior de SP agrava crise em Taquaritinga
Com ventos de até 120 km/h, a tempestade que atingiu três cidades do interior paulista na sexta-feira agravou a situação de Taquaritinga, que já enfrentava dívidas, receita comprometida e redução populacional. O vendaval, acompanhado de granizo, também devastou Ribeirão Preto e Guariba.
Dívidas em atraso, receita comprometida e uma economia com tão pouco movimento que a população diminuiu, segundo o último censo. É a situação de Taquaritinga, 53 mil habitantes, uma das cidades mais fragilizadas com o vendaval que varreu três municípios no interior de São Paulo, na sexta-feira 24. As outras duas foram Ribeirão Preto e Guariba.
As chuvas chegaram acompanhadas de granizo e ventos de mais de 100 km/h. Oficialmente, foram 120 km/h, mas o próprio Tarcísio de Freitas, governador do Estado, citou registros de velocidades próximas a 160 km/h. Em Taquaritinga, a força derrubou árvores, comprometeu a estrutura da rodoviária, destelhou casas, destruiu uma escola e arrasou alguns dos poucos galpões industriais da cidade, além de devastar lavouras, que são uma das principais fontes de renda local. O barulho do vento espalhou pela cidade o pavor, ampliado pelas cenas da devastação.
“O cenário já seria trágico para uma cidade próspera”, explica Nicholas Nunes, engenheiro civil criado na cidade. “Por aqui, onde a economia vai mal e a prefeitura está afogada em dívidas, é ainda pior. A escola destruída é um problema grave entre muitos e mostra, de forma clara, a força do vento que passou por aqui. Agora, também será preciso verificar os danos estruturais daquilo que não ruiu, e essa é uma missão muito mais difícil.”
Segundo o especialista, estragos em telhados ficam evidentes na hora do desastre, enquanto os danos nos alicerces das construções, que são a base para sustentá-las, podem demorar mais a aparecer. “O perigo é grande, mas fica menos evidente”, explica. “Pode aparecer nas paredes, por meio de trincas e rachaduras. Mas o dano na fundação, eventualmente, não é perceptível de imediato por estar enterrado.”
A situação descrita por Nicholas para falar das estruturas se assemelha às contas públicas da prefeitura. Antes mesmo da tempestade, o caixa do município enfrentava desafios diários. Há meses, a receita não cobre as despesas. Mesmo repasses referentes a descontos em folha de pagamento, como os destinados a bancar o plano de saúde privado dos funcionários públicos municipais, deixam de ser feitos, embora o desconto no contracheque continue. O problema, nesse caso, vai além do que é evidente e aparece de forma inesperada.
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“Programamos os pagamentos, mas, na hora de fazê-los, aparece uma liminar e bloqueia as nossas contas bancárias”, diz Tadeu Giollo, secretário municipal da Fazenda. “É terrível. A gente fica sem saber se vai conseguir cumprir o que foi planejado. São cerca de R$ 120 milhões em dívidas, o que corresponde a cerca da metade de toda a receita de um ano inteiro.”
Giollo comenta ainda que parte dos problemas poderia ser solucionada se o pagamento dos impostos e das taxas ocorresse em dia, mas a situação econômica precária local gerou muita inadimplência. “São mais de R$ 107 milhões em dívidas que a prefeitura tem a receber e que simplesmente não entram no caixa”, comenta. “A população está sem dinheiro, empobreceu.”
A falta de recursos descrita pelo secretário transparece em cada esquina. “Pelas ruas de Taquaritinga, há uma epidemia de placas de ‘Vende’ e ‘Aluga’ nos imóveis comerciais”, comenta o vereador Beto Girotto, presidente da Câmara Municipal. “Estamos quebrados. No passado, Taquaritinga era uma cidade com indústrias, e o movimento aumentava ainda mais na época das colheitas. Mas isso acabou. Os trabalhadores que vinham para cá na época das safras não existem mais, e muitas indústrias foram embora, sobraram poucas.”
O êxodo das empresas levou a maior parte da receita com tributos como o ICMS, recurso que escapa para as cidades vizinhas. A produção de cana-de-açúcar nas lavouras taquaritinguenses gera os empregos e o imposto sobre a circulação nas cidades de vizinhas, sede das usinas que processam essa matéria-prima.
A precariedade econômica também aparece nos registros do governo federal. Dos 53 mil habitantes, por volta de 20% estão empregados com carteira de trabalho assinada. É o pior resultado em comparação com o das outras duas cidades também severamente afetadas. A proporção é de 25% em Guariba e de 35% em Ribeirão Preto. Ao mesmo tempo, Taquaritinga lidera na proporção de vulneráveis. Cerca de 15% da população depende do Bolsa Família.
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