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Transição ecológica no Brasil corre risco de reproduzir desigualdades

“O que está em curso no Brasil é uma transição verde e não uma transição ecológica justa e sustentável”, afirma Arilson Favareto, do CEBRAP.

O estudo “Cenários e custos da transição ecológica no Brasil – As interdependências entre a transição energética e a transição agroalimentar e os riscos de um neoextrativismo verde”, lançado na semana passada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e pelo ClimaInfo, mostra que o investimento na transição ecológica no Brasil é muito menor do que o custo da inação climática. Contudo, um dos principais méritos da pesquisa é destacar um risco ainda pouco considerado nesse processo: o neoextrativismo verde.

Diretor científico e coordenador da área de sustentabilidade do CEBRAP e um dos autores do estudo, Arilson Favareto afirma que a transição já está em curso no Brasil. No entanto, o país está diante de uma encruzilhada: pode seguir uma trajetória de especialização em commodities verdes, reproduzindo o padrão histórico de desenvolvimento dependente e desigual – o “neoextrativismo verde” – ou pode fazer da transição a oportunidade para promover diversificação produtiva, inovação e inclusão social. A escolha entre estas duas rotas é política, reforça Daniela Chiaretti no Valor.

“Seguramente, teremos uma economia com menor pegada de carbono, um processo que já está ocorrendo e vai se intensificar. Isso porque os custos atuais são impagáveis; a mudança climática vai exigir e os mercados internacionais também. Mas o que está em curso é uma transição verde, e não necessariamente uma transição ecológica justa e sustentável. A transição já está acontecendo, mas é muito lenta e ambígua”, explicou Favareto.

A ambiguidade, frisa o especialista do CEBRAP, reside no fato de a transição estar orientada pela descarbonização, sem considerar outras fronteiras como a proteção da biodiversidade e a redução da desigualdade social. Favareto dá como exemplo desse risco a mobilização de recursos para iniciativas de regeneração florestal e da paisagem.

“Pode-se implementar esta ação com iniciativas de reflorestamento em grandes propriedades e usando grandes empresas de reflorestamento, ou se atingir a mesma meta priorizando áreas de pequenos produtores, com pequenos fornecedores de mudas. Pode-se ter o mesmo resultado em uma meta ambiental, concentrando ou distribuindo renda.”

Vale lembrar que o estudo do CEBRAP apresenta cenários e custos considerando a interdependência existente entre a transição energética e a transição do sistema agroalimentar – este último o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Assim, a análise explora três cenários para cada um dos dois setores.

O primeiro é o inercial, no qual tudo continua como está, as emissões são elevadas e levam a um aquecimento de, no mínimo, 3°C acima dos níveis pré-industriais, e o Brasil perde reputação e competitividade. O segundo cenário é o do cumprimento da meta climática brasileira, a NDC, em que a energia renovável chega a 90%, o desmatamento ilegal é zerado, mas o esforço ainda é insuficiente e apresenta problemas. O terceiro é um panorama que vai além da NDC, com desmatamento zero, menor dependência econômica e forte redução das desigualdades. “Este terceiro nos aproximaria mais de uma transição justa e sustentável”, reforçou Favareto.

Quanto aos valores, a pesquisa aponta que os custos sistêmicos do modelo agroalimentar atual giram entre US$ 410 bilhões e US$ 526 bilhões (R$ 2,1 trilhões a R$ 2,7 trilhões) por ano. Já a transição do setor agroalimentar exigiria um investimento acumulado de US$ 268 bilhões a US$ 511 bilhões (R$ 1,4 trilhão a R$ 2,6 trilhões) até 2050. No setor energético, os custos atuais são estimados entre US$ 300 bilhões e US$ 428 bilhões (R$ 1,5 trilhão e R$ 2,2 trilhões) por ano, enquanto os aportes para a transição até 2050 ficam entre US$ 597 bilhões e US$ 915 bilhões (R$ 3 trilhões e R$ 4,7 trilhões).

“Isso gera uma pergunta: se a transição é tão favorável e poderia se pagar em pouco tempo, por que não acontece?”. Um dos motivos, afirma Favareto, é que boa parte dos custos é oculta e diluída pela sociedade. “Não é uma empresa que paga pelo impacto do agravamento dos eventos climáticos extremos, pela quebra de infraestrutura ou pelos problemas de saúde que temos relacionados à poluição ou ao consumo excessivo de ultraprocessados”, frisou.

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Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/08/31/transicao-ecologica-no-brasil-corre-risco-de-reproduzir-desigualdades/

Fonte: climainfo.org · Por Ian Mello

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