Violência e provocações marcam rodada do futebol brasileiro
Em uma rodada marcada por conflitos, o jogador Jean Lucas, do Bahia, mostrou a camisa do clube para torcedores do Vitória. Em seguida, Cacá, do Vitória, tentou rasgar a camisa do Bahia. Em outra partida, um torcedor do Santos cuspiu no jogador Reinaldo, do Mirassol.
A selvageria quer tomar conta do futebol brasileiro. Não há outro termo melhor para descrever este momento de falta de identidade, preocupação com a aparência, presunção e discórdia. Em uma rodada, Jean Lucas mostra a camisa do Bahia para os torcedores do Vitória. Em seguida, Cacá, do Vitória, em um gesto tresloucado, tenta rasgar a camisa do Bahia, arrancada da mão do jogador.
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Em outra partida, um torcedor do Santos cospe no jogador Reinaldo, do Mirassol, visto por ele como um inimigo mortal a ser eliminado. Nada mais ilustrativo para alguém que quer colocar no futebol as suas frustrações e, preocupado em se mostrar para os outros, passar a imagem de fiel torcedor. Não, não dá para dizer fiel, porque senão vai parecer que ele é corintiano (contém ironia).
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Na disputa entre Cruzeiro e Atlético-MG, Kaio Jorge coloca em risco, inclusive de vida, o próprio companheiro de profissão, Ruan Tressoldi, para mostrar para sua torcida que é cruzeirense, que não leva desaforo para casa. Na ida dele ao encontro do corpo do jogador, já dá para perceber a intenção, por trás do olhar disfarçadamente ingênuo.
Algo antiprofissional e desrespeitoso para um esporte que paga milhões em salários. Investimentos em infraestrutura e condições para os atletas não faltam. Mas, o que é contraditório, o comportamento e o lado emocional de jogadores, técnicos, dirigentes, torcedores e outros integrantes são precários.
Há ainda os discursos padronizados de boa parte dos jornalistas, os goleiros que se tornam frangueiros porque tomam gols, os cercadinhos em torno dos árbitros, em absolutamente todos os jogos, depois de marcarem um lateral a favor do adversário. Tudo para jogar para a já inflamada e ensandecida torcida.
Os dirigentes que reclamam, em todo jogo, de todas as marcações contra o seu time e nada dizem quando são beneficiados. Claro, isso sem levar em conta que a ideia de prejuízo ou benefício é vaga, subjetiva, conforme a própria regra do futebol prevê, mas todos querem interpretar tudo a favor de si.
Nesta balbúrdia insuportável, recheada da mais pura ignorância e do desejo de não aprender com os próprios erros, a presença de Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, seria de grande valia. Com fama de agregador e vasto currículo no futebol europeu, sua experiência, seus conselhos e sua participação teriam tudo para serem benéficos em um ambiente tão carente de referências.
Mas não. Ancelotti quase não aparece no Brasil. Veio, três semanas depois da Copa do Mundo, interrompendo sua rotina no Canadá, para falar do projeto. Fez uma ou outra reunião, tirou fotos mostrando interesse pela Seleção Sub-20, na Granja Comary, e novamente sumiu.
Prometeu iniciar um novo ciclo depois da derrota para a Noruega, no Mundial. Novo ciclo este que já deveria ter começado. Mas Ancelotti, enquanto o futebol brasileiro se afoga na balbúrdia, não foi a um jogo sequer. Os técnicos da Alemanha, Jürgen Klopp, e da Inglaterra, Thomas Tuchel, já assistiram a jogos dos campeonatos locais. Klopp esteve na final da Supercopa da Alemanha, no sábado 22, em Dortmund. Tuchel foi ao jogo entre Newcastle e Liverpool, pela primeira rodada da Premier League, no domingo 23, em Newcastle.
Ancelotti não foi nem mesmo a nenhuma das três partidas entre Flamengo e Cruzeiro, duas das melhores equipes, o que de mais promissor o futebol brasileiro pode apresentar neste momento. Não basta delegar a Rodrigo Caetano ou ao ex-jogador Juan o papel de curadores.
Ancelotti e o futebol brasileiro
Caberia a Ancelotti, com o peso de seu nome, decidir pelos seus próprios olhos, pelo seu olfato, pela sua audição, com sua sensibilidade. Seria determinante ele estar em alguns jogos. Sentir o clima, olhar o rosto dos torcedores, jogadores, respirar o clamor da multidão.
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É necessário ele ouvir as queixas, reagir com sua elegância às ofensas, rebater a infâmia com um semblante de 'basta', ajudar a encontrar soluções para esta crise com sua conduta exemplar, demonstrada ao longo da carreira. Não há como colaborar com a Seleção Brasileira sem também colaborar com o futebol brasileiro. Um está ligado ao outro.
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Não se trata de julgar a postura do treinador e nem de persegui-lo. Não. Tampouco colocar nele a responsabilidade de salvador. Mas se fala muito dos erros depois que eles ocorreram, depois das eliminações. A questão é que a preocupação com a Seleção e com o futebol brasileiro precisa ter uma dose de ansiedade. E estar presente sempre, no começo e no meio, para que o fim seja satisfatório. A primeira convocação é daqui a pouco. Algum tempo já foi perdido.
Seria fundamental que o técnico da Seleção vivenciasse mais o futebol brasileiro. A presença dele não desviaria o foco e nem tiraria a tranquilidade. Seria um sinal de apoio. Até um consolo. Não lhe falta capacidade para realizar um grande trabalho. Mas, para ir além, fazer a sua parte nem sempre é apenas cumprir o contrato. É impossível dar um abraço à distância.
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